Na colônia Z-13 a mulher não fica esperando o marido voltar

Carlos Braga, Jornal do Brasil

RIO - Pescaria sempre foi considerada coisa de macho. Até hoje é difícil encontrar moças que listem o esporte entre as suas preferências na hora de lazer. Que dirá, então, fazer dessa atividade o seu sustento? Pois Kátia Janine não só viveu disso por muito tempo como é a presidente, há mais de dois anos, da colônia de pescadores Z-13. E se candidatou a pedidos. Nem por isso se livrou de atritos com alguns de seus companheiros, homens do mar. Na primeira reunião que presidiu, um dos associados se levantou e lhe disse na cara que não a queria no comando por que era mulher.

Em outras ocasiões teve gente avisando que não ia aceitar ordem de mulher. Expliquei que não queria mandar em ninguém e tal. Hoje somos muito amigos, mas na hora tivemos esse problema. Até hoje tem uns turrões que não me aceitam na presidência conta Kátia, rindo.

O mandato é de quatro anos. Kátia se candidatou porque pensara que ainda era de dois anos. Por um lado achou bom, dois é pouco; mas, por outro, não vê a hora de sair. Quer voltar para a pescaria, mas não arranja tempo. A Z-13 abrange os núcleos que vão da Urca até o Pontal do Recreio. Chega à colônia por volta das 8 e vai embora às 15h. Não há rotina. Cada dia tem os seus pepinos, ou melhor, ouriços. Na quarta-feira, ajudava um associado a comprar peças novas para seu barco. Intermediou toda a negociação entre o enrolado pescador e um atrapalhado vendedor.

Eles falam que tinha que ter uma mulher aqui para arrumar a casa. Acho que homem, às vezes, é meio preguiçoso, meio mole avalia.

Pesca e ombros largos

Kátia começou seu caso de amor com o mar ao lado marido, na Ilha do Governador, em 1988. Ele se dividia entre o emprego de motorista da Comlurb e a pesca. Os casal botava o barco na água, todo dia, às 7h30, depois de Kátia levar os filhos para a escola. Parecia letra de Caymmi. Era dureza. O barco era a remo. De vez em quando eles improvisavam uma vela de plástico para aproveitar o vento e se cansar menos. Da época, ficou a habilidade em lidar com os apetrechos de pesca e os ombros de nadadora.

Por isso que fiquei larga aqui (aponta com as duas mãos para os ombros). Quando vi, não tinha mais jeito lamenta-se, bem humorada, Kátia, que não gosta de peixe, só de camarão.

Mas Kátia não é a única mulher na associação de homens do mar. Dona Tininha, como é conhecida Logina Lazarini Rodrigues, de 72 anos, já trabalhou 10 anos como pescadora, com o marido. Mineira de Ponte Nova, veio para o Rio por recomendações médicas, devido a uma bronquite. Apaixonou-se pelo mar e não voltou mais. Hoje mora em Madureira, na Zona Norte. Pescava de rede e de arrastão, na beira da praia, o que não faz mais.

Adoro pescar, mas tenho osteoporose. Não dá mais. Gosto de pescar e de comer o peixe, mas peixe de segunda, como corvina. Desses peixes caros não gosto muito não explica Dona Tininha, reclamando que hoje o produto anda escasso.