Colônia Z-13 de Copacabana reclama da pesca predatória

Carlos Braga, Jornal do Brasil

RIO - Muita coisa mudou desde que pescadores fundaram uma colônia, em junho de 1923, em uma das pontas da Praia de Copacabana, onde atualmente é o Posto 6. Os edifícios subiram, a praia foi aterrada para a duplicação da pista da Avenida Atlântica, os peixes sumiram e o pessoal que tira o sustento do mar passou a ser comandado por uma mulher.

Na colônia Z-13 trabalham cerca de 40 pescadores, entre donos de barcos, que são 20, e ajudantes, em geral dois para cada embarcação. O dia começa por volta das 5h30, quando saem os primeiros barcos. Na rua, só gente que madruga para correr no calçadão e os primeiros a desertar das pistas de dança.

Para entrar na água, eles empurram o barco pela areia até sobre tocos de madeira, que vão tirando do fim e colocando no início. Há dias em que vão até as Ilhas Cagarras, em Ipanema. Quando acham que vale a pena, navegam até a Barra, são duas horas e meia para ir e outras para voltar.

Pescador é que nem cão farejador. A gente vê o peixe malhado na rede e sabe de onde ele vem. Antigamente era bom ir para a Barra para pescar linguado. Hoje em dia o pessoal de lá aprendeu a pescá-lo conta o cearense de Aracati José Manoel Pereira Rebouças, o Pavão, de 49 anos.

Mas ele não gosta de comer.

Na minha terra é amaldiçoado, tem a boca torta e os dois olhos do mesmo lado explica, rindo.

Malhado é o jeito como o peixe é pego na rede. Sua posição denuncia de onde vem, lugar para onde vão os pescadores assim que percebem a dica. Atualmente nem sempre é garantido segui-la. Todos se queixam da queda brusca na quantidade que cai na rede ou na linha dos barcos. Culpam a pesca predatória, feita por empresas que dispõem de barcos com tecnologia que permite localizar e capturar cardumes inteiros. Com sua técnica artesanal, os pescadores da Z-13 conseguem, num dia muito bom, pegar de 200 kg a 300 kg. Na quarta-feira, a média era de 15.

Paulo Cesar Tavares, 49 anos, lembra do tempo, uns oito anos atrás, em que na entrada da boca da barra dava mil quilos de peixe, que pediam três viagens de barco. Se não é conversa de pescador, a coisa piorou bastante. Paulo Cesar diz que, por conta dessa escassez, peixes que não faziam muito sucesso hoje não param mais na bancada.

Tinha um peixe chamado el diablo, ou diabinho, que ninguém queria. A gente jogava fora. Hoje está todo mundo comprando. Que nem o peixe-sapo. Quando vinha na rede a gente pensava, lá vem esse monstro! Hoje os italianos levam tudo. Baiacu também. Antigamente ninguém comia. Hoje, quando chega a época, o mar fica cheio de lancha de riquinho pescando baiacu conta.

Favela, asfalto e areia

A maioria dos pescadores mora nos morros próximos, como Pavão-Pavãozinho, Cantagalo e Tabajaras. A renda está entre um e três salários, a depender do tempo, do mar e dos peixes. Preferem o verão para trabalhar. Dizem que o inverno é uma tristeza, tem muita ressaca e o mar fica ruim. José Manoel diz que nessa época há quem chegue a garimpar na areia da praia para garantir o sustento, procurando por cordões, dinheiro e anéis.

Os melhores meses são março, abril e maio. Aparece muito peixe: anchova, corvina, olho-de-cão e pescada. A gente vende direto para o cliente, para tentar se livrar do atravessador, que acaba lucrando mais do que a gente lamenta José Manoel, dizendo que um quilo de linguado na colônia sai por R$ 20 e nas peixarias por R$ 25.

Por volta das 8h30 voltam os primeiros barcos. Quarta-feira realmente não foi um dia bom. Os pescadores acomodam, em apenas quatro dos 20 boxes de exposição, sardinhas, robalos, garoupas, pampos, bagres e pacus. Um polvo é colocado numa caixa com gelo. A maioria é vendida no olho, negociada com cada cliente. Só peixes nobres, como robalo, são pesados na balança. São limpos ali mesmo.

O francês Mattheus Stanic, 25 anos, fica por ali, ajudando um e outro. Veio de Nice e está há oito meses no Rio, na casa da namorada brasileira, no Leme. Em bom português, explica que veio de uma família de pescadores e que procura trabalho. Diz que em sua cidade a pesca está mais mecanizada, apesar de o estilo mais artesanal, como o que encontrou aqui, ainda sobreviver. Prefere o sabor do peixe do Mediterrâneo, apesar de achar que aqui a quantidade é maior.

Me falaram que tem um barco que vai sair daqui a pouco. Vou com ele. Se não, volto outro dia conta, no melhor estilo Caymmi.