Eles vivem sem medo no Rio de Janeiro

João Paulo Aquino, Jornal do Brasil

RIO - Ao folhear as crônicas e romances de Machado de Assis e Lima Barreto, o leitor encontra um Rio do início do século 20 sem medo. Nas tramas, narra-se uma vida urbana diferente, os cidadãos frequentavam as praças, namoravam na orla e iam aos bailes a pé. O fim do século chegou, os anos 2000 começaram e, com eles, os muros cresceram, as grades ganharam janelas e portas, cercas elétricas espalharam-se em velocidade relâmpago, as alcoviteiras foram substituídas pelas câmeras de vigilância, fronteiras invisíveis foram construídas em determinados pontos da cidade, mas ainda assim nem todos os cariocas sentem-se intimidados com a violência que teima em bater à porta.

O ourives Jorge Barrese, por exemplo, lança fora o medo e monta uma rede de vôlei, duas vezes por semana, para prática do esporte durante a noite. Aos 43 anos, o artista dá um corte na fobia urbana e com um grupo de 40 pessoas aproveita a extensa faixa de areia próximo ao Posto Seis, em Copacabana.

Nós moramos em um paraíso, uma cidade maravilhosa, e temos que aproveitar ao máximo. É comum a gente ficar até de madrugada aqui, tem partida que acaba às quatro da manhã revela Jorge, morador do bairro há 26 anos.

Jorge já presenciou assaltos na orla, mas isso não tira sua coragem. Em todas as partidas a família inteira é escalada. No jogo contra o medo, atuam no mesmo time a mulher Jane Rocha, 43 anos, e o filho único Rafael, de 14, sempre presentes.

A praia é o espaço mais democrático da nossa cidade. Aqui todos têm vez e a qualquer horário. Vêm pessoas de vários pontos da cidade, até comunidades como Vidigal e Rocinha. Depois da partida, é comum a gente ainda comemorar em alguns botecos aqui por perto conta o ourives, que, otimista, acredita estar próximo o fim da violência na cidade.

Os adolescentes e jovens são também prejudicados neste tempo de clausura e temor. A fase da vida caracterizada pelo início das atividades sociais e busca de liberdades está mais restrita. Os conflitos entre pais e filhos por causa de horários ou proibição de sair diminuíram, os menores obedecem por precaução e medo da violência e alguns nem questionam os pais. A estudante Bianca Credie, ao completar 18 anos, resolveu vencer o medo. E não se arrepende.

Meus pais, principalmente minha mãe, me colocavam muito medo de sair desde que eu era criança. Porém, não peguei esse sentimento. Hoje, saio para dançar de noite e volto de manhãzinha, vou de metrô, mas não deixo de fazer nada por causa da violência. O medo só ia me deixar mais presa e quero viver minha vida relata.

Douglas Floriano Vieira começa este ano os cursos de direito na Uerj e história na UFRJ. E também não se prende por causa do medo.

Tenho 17 anos e não posso dirigir. Então, se não for de ônibus ou metrô, não saio de casa. Vou para Lapa, frequento barzinhos, ando pela rua e não deixo de curtir essa fase tão boa da minha vida justifica-se.

Sua mãe, porém, se preocupa.

Enquanto ele não chega em casa, não durmo. Sempre ligo para saber onde ele está, mas não proíbo nada. A gente cria filho para o mundo, não para nós adverte Luciana de Castilho, que uma vez foi buscar Douglas em um barzinho porque não conseguia falar com o filho pelo celular.

Manter a boa forma, também tornou-se um desafio ainda maior, o temor impõe horários e restringe lugares para a prática de exercícios. Porém, não é por isso que Cícero Pinheiro, 38 anos, perde o pique.

- Correr aqui no Aterro, com essa vista, é também um exercício de higiene mental. O Rio é lindo - diz o contador que treina às 22h.

Ele nunca foi assaltado.

- Não sei porquê os amigos não me acompanham. Não sei se é pelo meu pique acelerado ou se porque têm medo mesmo - brinca.