Ajuda a dependentes químicos está em crise

Paula Máiran, JB Online

RIO - O plano era dar um grande e simbólico abraço em torno do edifício no número 121 da Rua Fonseca Teles, em São Cristóvão, na Zona Norte da cidade endereço do Conselho Estadual Anti-Drogas (Cead). Eram, no entanto, pouco mais de 20 os manifestantes, com braços em quantidade insuficiente para a empreitada. Ainda assim, o grupo de adictos em recuperação promoveu nesta segunda-feira o seu protesto contra o desmantelamento da unidade de referência em tratamento de dependentes químicos do governo do estado.

O número de atendimentos caiu de 20 mil em 2007 para menos da metade neste ano e continua em queda. Sem pagamento de salário há quatro meses, os médicos têm abandonado a unidade. Os oito ambulatórios estão fechados. Só um psiquiatra oferece consultas. A equipe que resta, 29 profissionais de saúde e burocráticos, ameaça parar de vez em dezembro.

Há dois anos, desde a transferência da entidade do âmbito da Secretaria estadual de Justiça para a da Ação Social, as coisas começaram a piorar no Cead, segundo relato de profissionais e pacientes. Mas, com a equipe de 30 terapeutas e funcionários administrativos sem salários e sem contratos formais desde julho deste ano, a crise se acirrou.

Até meados do ano, a equipe recebia por meio de uma fundação. Atualmente, apenas pacientes novos recebem um primeiro atendimento, em caráter de triagem, e são encaminhados, conforme o caso, para as três clínicas de internação estaduais, ou para os Centros de Atenção Psicossocial - Álcool e Drogas (CAPs-AD) municipais. A maioria, mais de 90% dos casos, refere-se ao consumo de crack, droga de efeito devastador no cérebro e sistema nervoso central de seus dependentes.

Para o secretário municipal de Ação Social, Marcelo Garcia, a queda no atendimento no Cead não reflete a realidade da demanda.

Essa demanda só aumenta, ainda mais no que se refere ao crack, que se alastra. Não podemos abrir mão de qualquer aparato de atendimento. As clínicas também atuam de forma precária hoje. E os CAPs não cobrem a lacuna deixada pelo Cead.

Promessa

A assessoria de imprensa da Secretaria de Ação Social confirmou o atraso salarial, que seria devido a impedimento legal de renovação dos contratos no período eleitoral. Segundo a assessoria, um mês de salário deverá ser pago até a sexta-feira.

Há uma semana, entregamos no Palácio Guanabara carta endereçada ao governador Sérgio Cabral e ainda aguardamos resposta. Não adianta ele investir tanto em segurança, em caveirão, se não investir em prevenção da violência, no tratamento da população de dependentes químicos do Rio desabafou um terapeuta, sem se identificar sob temor de represália.

"Confundem pobreza com dependência

- O Cead era um porto seguro para quem lutava contra a dependência química. Éramos acompanhados por psicólogos, psiquiatras e terapeutas. Alguns, como eu, estamos livres das drogas há muito tempo, mas todos ainda precisando de atendimento ambulatorial, de acompanhamento. Depois que a entidade passou para a Secretaria de Ação Social, essa equipe está desestruturando tudo, falam agora em assistência social para adictos, oferecem cestas básicas e emprego. Mas não dá para reintegrar o adicto no mercado de trabalho se o ele não está bem. Não vai se manter no emprego, vai se queimar. Confundem pobreza com dependência química, coisas bem diferentes. Suspenderam todos os grupos de atendimento, só há um psiquiatra atendendo. O serviço está precário. Os terapeutas desistem de trabalhar porque não recebem há quatro meses. Vi, outro dia, um chorando porque, por falta de condições, não poderia continuar. Nossa manifestação é para que o Cead não acabe. Precisamos de assistência médica, de terapia psicológica. Estou limpa há 19 anos e ainda preciso dessa manutenção, tomo remédios. Nem estou falando por mim. Vejo quem chega hoje ao Cead e lembro de mim quando cheguei. O desespero é total, há quem peça para morrer. A pessoa tem que ser acolhida, como eu fui, cuidada e acompanhada para aprender a andar com as próprias pernas. Agora, quem chega fica perdido nessa palhaçada política. Precisamos de tratamento, não de assistencialismo.

Suely Ribeiro, de 50 anos adicta.

Vamos pedir a Deus que nos proteja, diZ Murilo Ásfora

Murilo Asfora entrou na luta por uma política pública de tratamento de dependência química depois de sofrer na lida com um adicto em sua própria família. À frente por oito anos do Cead, tornou a entidade referência nacional no tratamento do vício em drogas lícitas e ilícitas. Desistiu há dois anos do combate, decepcionado com os rumos governamentais nesse campo.

JB: Por que desistiu de lutar?

Murilo: A equipe do Cead foi desmantelada no início desse governo, quando a entidade passou a pertencer à Secretaria de Ação Social. Não houve interesse em dar continuidade ao trabalho. Ficou claro que essa não era uma prioridade.

JB: Qual o legado que o senhor deixou no Cead?

M: Havia um atendimento de 250 pessoas por dia. Criamos em dois governos três clínicas estaduais que eram referência em tratamento. Está tudo sendo desmantelado.

JB: De quem é a responsabilidade?

M: Entregaram o Cead à secretária de Ação Social, Benedita da Silva, a mesma que tinha desmantelado tudo no curto período em que foi governadora. Tive que gastar dinheiro do próprio bolso, para reestruturar o Cead, para ser tudo destruído de novo. Há uso político do sistema.

JB: O que diz da queda progressiva no índice de atendimento?

M: Lamentável isso em um cenário em que só aumenta o consumo, ainda mais com a entrada do crack, que chegou ao Rio a partir de 2004 e cujo consumo não parou de avançar.

JB: Não há outras unidades que supram a lacuna do Cead?

M: O Nepad faz um bom atendimento mas não cobre a demanda. E há os CAPs, que representam um retrocesso, ao trazer de volta o tempo em que dependentes eram tratados como pacientes mentais.

JB: As secretarias de Saúde não dão conta dos hospitais. Como vão ter condições de assumir essas clínicas?

Que cenário vislumbra para o Rio no campo das drogas?

M: Nesse momento em que morrem, em recorrentes confrontos em torno do tráfico de drogas, bandidos, policiais e a população, é inaceitável não haver mais investimento na prevenção, no tratamento dos dependentes químicos. Devemos esperar mais violência, porque, para não ficar sem drogas, eles vão assaltar e matar. Vamos pedir a Deus que nos proteja!