Novas linhas de ônibus são esperança de melhora no transporte no Rio

Carlos Braga, Jornal do Brasil

RIO - Um dos principais sacos de pancada da campanha à prefeitura, o sistema de linhas de ônibus que atende aos cariocas parece estar prestes a ir à lona. O nocaute poderá vir com a nova licitação, prometida pelo próximo prefeito, Eduardo Paes, que pretende trazer racionalidade para o meio de transporte usado por cerca de 70% da população da cidade.

Com a reorganização, virá também, garante Paes, o bilhete único, que permitirá ao passageiro usar mais de uma condução ao preço de uma única passagem.

Em algumas áreas, falta ônibus em outras há excesso de linhas. Vamos fazer tudo aquilo que prometemos, que é definir um novo plano de transportes para a cidade e implantar o bilhete único afirmou Paes ao JB.

Para especialistas em engenharia de tráfego, não se trata de reformar o atual sistema, mas de eliminá-lo para implantar outro. Circulam hoje pelas ruas da cidade 7.573 ônibus (de 47 empresas) em cerca de 400 linhas. Como observou Eduardo Paes, são mal distribuídas: os coletivos entopem as vias da Zona Sul e deixam passageiros mofando nos pontos de ônibus das zonas Norte e Oeste, principalmente.

Fernando Macdowell, doutor em engenharia na área de transportes, explica que o motivo do desequilíbrio é a rentabilidade proporcionada por cada região. Os itinerários da Zona Sul têm como característica um constante embarque de passageiros, e muitos deles percorrem trajetos curtos.

Nos bairros da Zona Oeste, a maioria entra no ônibus nos primeiros pontos e desembarca apenas no destino final, em geral o Centro da cidade. Esse é o motivo de muitas linhas da Zona Sul terem trajetos parecidos. É o filé mignon das empresas.

Tem um entra-e-sai para pequenas distâncias. Um bando de gente embarca no Posto Seis e salta no Quatro. Já o passageiro que pega o ônibus em Santa Cruz só sai no centro. No subúrbio, é a mesma coisa: de manhã todo mundo vem e, à noite, todo mundo vai analisa Macdowell.

Sucateamento

Desempenhar uma função que não é a sua é o principal problema do sistema de linhas de ônibus do Rio de Janeiro. O professor de engenharia de transportes da UERJ, José de Oliveira Guerra, explica que as empresas rodoviárias ampliaram o seu raio de atuação à medida que os verdadeiros transportes de massa (trem, metrô e barcas) se deterioraram.

O sistema de transporte público funciona com a mesma malha de linhas há pelo menos duas décadas. Estruturalmente, os ônibus exercem o papel de transporte de massa e dão conta de uma função muito superior a que deveria lhe caber na realidade analisa.

Diferença gritante entre as zonas Sul e Oeste da cidade

Lúcio Flávio de Souza Ferreira, 26 anos, é bom conhecedor dos itinerários cariocas. Supervisor de uma companhia telefônica, é freguês de várias linhas da cidade, da Zona Oeste à Zona Sul, passando pelo subúrbio.

Sabe que a qualidade do serviço que vai encontrar dependerá da região em que estiver.

Às vezes, o ônibus está lotado, às vezes nem tanto. Depende da linha. Algumas têm que aumentar a frota. Uma vez, no 691, Méier-Barra, o ônibus quebrou no meio da Linha Amarela. Estava superlotado. Ficou claro que quebrou por causa disso reclamou.

Faltam ônibus, mas também motoristas. O presidente do Sindicato dos Rodoviários, Oswaldo Garcia, calcula que as empresas precisam de mais 5 mil funcionários para dirigir. Garcia diz que, com o déficit, os condutores têm sido obrigados a fazer hora extra.

No inverno, a frota é recolhida mais cedo, mas no verão não sei como vai ser. Quem não dobra é perseguido na empresa acusa Garcia, acrescentando que há firmas que estabelecem cotas de até 400 passageiros por turno de sete horas de trabalho.

Mesmo com tanta vaga, são raros os que dispõem a encarar o volante. O fiscal de uma linha que liga um bairro da Zona Sul ao subúrbio diz que não é qualquer um que encara a Avenida Brasil engarrafada no verão .

Tem garotão que acha que é moleza e larga na primeira semana. Não tem estrutura psicológica analisa o fiscal, garantindo que o telefone para reclamações funciona são três dias de gancho se deixarmos passageiro no ponto.

Dayane Nayoa, 23 anos, securitária, mora na Abolição e é assídua da linha 457. Como embarca em frente ao shopping Rio Sul, o ônibus chega cheio. Torce para que logo atrás venha o extra, que chega vazio.

Hoje tem extra? pergunta para o fiscal.

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