No Rio, famílias são expulsas de comunidades pobres por traficantes

Idelina Jardim, Jornal do Brasil

RIO - Ameaça. Expulsão. Exílio. Essas palavras marcaram a realidade do nordestino Rogério S. B., de 36 anos obrigado por milicianos a deixar com a família uma favela na Zona Oeste, Amauri M.S., de 44 anos expulso por traficantes do morro do Juramento, em Thomaz Coelho (Zona Norte), e o casal Alan Nogueira e Rita de Cássia Nogueira que deixaram, com duas crianças, um prédio próximo ao Morro do Adeus, em Ramos, após a invasão de 35 traficantes fortemente armados.

Alan e Rita, pelo menos, serão indenizados. A invasão do edifício em que moravam ocorreu depois de um tiroteio com a polícia, que utilizava o prédio para observar e combater o movimento do tráfico na favela.

Dois criminosos morreram. Por considerar falha a operação policial, a 14ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio (TJRJ) condenou o estado a pagar quase R$ 30 mil ao casal.

Nos vimos impotentes. Tínhamos uma vida, uma casa estruturada que acabou. Foi o que nos moveu a acionar a Justiça e pedir indenização conta Rita.

O domínio de milicianos e traficantes nas áreas pobres gera polêmica num Estado onde oficialmente são registradas 600 favelas. Os exemplos crescem a cada dia, e a ausência de órgãos públicos que garantam condições dignas a essa população vem à tona.

O Rio precisa entender a sua contradição. As pessoas terão que sair da cidade para não morrer, tamanha é a insegurança de morar hoje em favelas, especialmente as que são controladas por milícias. Não é criando projetos dentro dessas favelas que vamos resolver o problema da violência. Falta comando do Estado pontua o secretário municipal de Assistência Social, Marcelo Garcia.

Através do Programa De Volta à Terra Natal , a secretaria beneficiou, desde o começo do ano, mais de 300 pessoas com passagens rodoviárias. O programa atende pessoas de todas as idades e famílias em situação de vulnerabilidade social.

Recentemente, a atuação de milicianos no Rio ganhou repercussão com o envolvimento de políticos o que abriu conflito com o poder público, conforme explica o presidente e criador da Comissão Parlamentar de Inquérito das Milícias, deputado Marcelo Freixo (PSOL):

Construímos um diagnóstico do conflito das milícias trabalhando com setores da intelectualidade, academia, Polícia Civil e Ministério Público. Ouvimos os órgãos que trabalham com o assunto e pessoas que foram ou são indiciadas por suposto envolvimento com milícias. E também, na organização de todos os dados oficiais que recebemos, inclusive do próprio disque-milícia.

A CPI está em fase final, com o relatório devendo ficar pronto em meados deste mês. Até setembro foram convocados suspeitos de envolvimento com grupos que eram candidatos ou já tinham mandato.

Procurados pelo Jornal do Brasil, a Secretaria Estadual de Segurança Pública, o Instituto de Segurança Pública e outros órgãos ligados à questão, assim como institutos de pesquisas, não possuem números oficiais, tampouco estimativas de pessoas que deixaram suas casas coagidas por milicianos ou traficantes.

Casa, família e sonhos ficaram para trás na rota de fuga

O nordestino Rogério S. B., de 36 anos, conta que, há quase dois anos, foi obrigado por milicianos a deixar sua casa com a mulher e os quatro filhos numa favela da Zona Oeste, sob ameaça de morte depois que o filho mais velho, de 18 anos, envolveu-se com uma das namoradas dos traficantes a menina tinha 12 anos de idade.

Ou a família ia embora, ou morria todo mundo. Fomos ameaçados por bandidos armados que invadiram a nossa casa no meio da noite à procura do meu filho, que não estava mais. Graças à Deus, saímos vivos mas a morte é sempre o caminho desabafa Rogério.

A rua como moradia

Com a aparência abatida, Amauri M. S., de 44 anos, esperava por um sopão distribuído aos moradores de rua, por religiosas nos Arcos da Lapa, no Centro. Nascido e criado no morro do Juramento, em Thomaz Coelho, Zona Norte, ele revela ter sido expulso em 2003 por traficantes, depois de contrair dívidas com drogas na favela. Foi obrigado a deixar pra trás a esposa e três filhos do segundo casamento.

Há cinco anos, sua casa é a rua. Sobrevive de esmolas e do recolhimento de latinhas e garrafas pet que rende 0,70 o quilo. Em 2006, descobriu ser soropositivo, entrou em depressão e faz tratamento psiquiátrico em hospital público.

Magro e de olhar triste, Amauri reconhece que errou:

- O único culpado sou eu, que coloquei a vida da minha família em risco. Quando entramos na bagunça, não sentimos nada, as conseqüências vêm depois afirma.

Amauri diz que é o mais velho de uma família de sete irmãos, mas ninguém o aceita porque não acredita que ele mudou. Ele tem esperança de receber do governo um benefício por ser portador de doença grave.

A saudade da família aperta o peito, mas sou impedido de me aproximar da região. Tudo o que queria é me desculpar com a minha ex-mulher.

Em 2004, o casal Alan Nogueira, de 42 anos, e Rita de Cássia Nogueira, 37, teve seu apartamento destruído por traficantes, que expulsaram os moradores do prédio próximo ao morro do Adeus, em Ramos, no subúrbio.

A Justiça os indenizará em quase R$ 30 mil, com os quais esperam comprar outra casa. O trauma daquela noite, porém, nunca vai passar.

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