Milícia regula ir e vir de moradores avalia estudo

Júlia Moura, JB Online

RIO - O Rio de Janeiro foi o município do Rio que mais teve denúncia de atuação das milícias, com 2.919 registros no Disque Denúncia, no período de janeiro de 2006 a Abril de 2008, de acordo com a pesquisa Seis por Meia Dúzia? , um estudo coordenado pelo professor Ignácio Cano, que ouviu moradores de áreas dominadas por milícias, lançada nesta quinta-feira. Em segundo lugar ficou Nova Iguaçu e em terceiro Duque de Caxias.

Na manhã desta quinta-feira o professor Ignácio Cano prestou depoimento à CPI das milícias da Assembléia Legislativa e falou sobre o que configura milícia. Em sua análise a milícia tem caráter com alguma medida coativa de controle de moradores do território, além da participação ativa e reconhecida de agentes do estado como integrantes dos grupos.

- Foi um depoimento extremamente importante. Ignácio Cano é um dos principais intelectuais do Rio de Janeiro na área de segurança pública. A pesquisa reforça que a ação desses grupos criminosos não representa qualquer tipo de guardiãs do povo ou justiceiro, que o termo milícia poderia ser atribuído, pelo contrário, confirma que são grupos violentos organizados por agentes do Estado que dominam territórios e que buscam lucros com as diversas atividades disse o deputado Marcelo Freixo, presidente da CPI das Milícias.

A pesquisa baseou-se em 3.469 registros do Disque-Denúncia, 248 matérias de jornais, além de 46 entrevistas com moradores de áreas onde as milícias atuam. Os dados demonstram que, entre janeiro 2006 e abril de 2008, foram registradas 1.549 denúncias de extorsão em áreas dominadas por milícias e mais de 500 acusações de homicídios, o que confirma a natureza violenta desses grupos e o tipo de dominação que exercem.

Relatos dados ao estudo de algumas comunidades mostram que moradores de algumas comunidades conseguiram enfrentar e derrubar o monopólio da milícia.

- Intimidaram o pessoal do gás. Já chegaram dizendo que o pessoal não vai mais entregar gás. Ninguém ia mais vender gás ali, só eles. Não vingou. Que mesmo com medo o pessoal boicotou disse um morador de Sepetiba, de acordo com o estudo.

- Há uma diversidade muito grande dessas ações milicianas no Rio, desde milícias pequenas, que tem a prática de venda de drogas até as milícias maiores que tem apelo maior no sentido de controle de comportamento, horários, padrões de relacionamento estabelecidos na comunidade disse Freixo.

Dos bairros estudados o que mais houve denúncia foi Campo Grande, com 258, seguido de Jacarepaguá, com 199 e Santa Cruz, com 169. Não há registro de atuação desses grupos paramilitares na Zona Sul do Rio.

- Existe uma grande concentração de informações, em especial na Zona Oeste, das quais eles utilizaram para a formação dos conceitos que em sua maioria de Campo Grande, Santa Cruz e Jacarepaguá. No nosso entendimento, assim como foi o entendimento dele (Ignácio Cano) é que a ação miliciana não chegou à Zona Sul. Não tem nenhum registro, e não é só a pesquisa da Uerj que aponta isso, mas o MP, a Polícia Federal e Civil, ninguém tem informações de ação miliciana na Zona Sul porque segurança privada não é a mesma coisa que ação miliciana, controle de van não é, necessariamente, a mesma coisa que ação milícia. Boa parte das ações milicianas tem o controle do transporte alternativo, mas nem todo transporte alternativo é fruto e resultado da milícia esclarece Freixo.

A CPI termina, nesta quinta, a fase inicial de tomada de depoimentos e começa sua segunda fase explorando a área de Jacarepaguá, Zona Oeste do Rio, que de acordo com Freixo ainda precisa ser melhor entendida. Está previsto também a convocação para prestar depoimentos as pessoas que foram acusadas de envolvimento com as milícias, como: os vereadores Luiz André Ferreira da Silva, o Deco (PR), e Josinaldo Francisco da Cruz, o Nadinho de Rio das Pedras, do DEM. A comissão estima que existam hoje cerca de 150 milícias no estado do Rio de Janeiro.