Mapa do TRE revela geografia do cabresto

Paula Máiran, Jornal do Brasil

RIO - PSOL e CPI das Milícias querem cruzar dados oficiais

O candidato a prefeito Chico Alencar (PSOL-PSTU) decidiu nesta quinta pedir ao Tribunal Regional Eleitoral (TRE) o que chamou de "mapa da exclusão eleitoral" no Rio, ou seja, dados sobre a geografia da votação de parlamentares eleitos pela população de comunidades dominadas por quadrilhas do tráfico de drogas ou de milícias.

Segundo Alencar, o PSOL deverá pedir formalmente ao TRE providências contra o cerceamento do ir e vir de candidatos pelos currais eleitorais que existem na cidade.

Para o candidato, o resultado da votação de parlamentares do Rio nos últimos pleitos revelará, por si só, onde estão e quais são os "donos" dos currais de votos na cidade.

O Jornal do Brasil publicou ontem reportagem sobre a performance de Natalino Guimarães nas eleições de 2006, quando foi eleito pelo DEM como deputado estadual.

De seus 49.405 votos, 91,14% saíram de urnas localizadas nas comunidades identificadas como território sob o controle da Liga da Justiça, milícia que, segundo a polícia, é comandada pelo ex-policial Natalino e por seu irmão Jerominho (PMDB), também ex-policial, ambos presos sob acusação de formação de quadrilha armada, tentativa de homicídio e favorecimento pessoal.

Para Chico Alencar, há partidos com moralidade de ocasião e ética meramente eleitoreira , com "cumplicidade" na proliferação dessas milícias.

É espantosa a desfaçatez do PMDB ao afirmar que não expulsará o vereador Jerominho porque ele agora não é candidato. E parece que só agora o DEM descobriu quem é o Natalino provocou ontem Alencar, em referência, no último caso, ao parlamentar preso há

três dias.

Com o mapa pedido ao TRE, segundo o candidato, será possível verificar aqueles no Rio que não foram eleitos deputados e agora são candidatos a vereador e os que, eleitos, apóiam outras candidaturas:

Vamos montar o mapa da exclusão eleitoral na cidade, para que a Justiça possa ir em cima desses candidatos e evitar a exclusão social que buscam provocar nessas áreas. Não podemos aceitar uma violência dessas contra a cidadania afirmou Chico, ontem, em corpo-a-corpo na Praça Afonso Pena, na Tijuca, Zona Norte.

O mesmo levantamento solicitado pelo PSOL foi formalmente pedido ontem pelo deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL), presidente da CPI das Milícias da Assembléia Legislativa, que apura a extensão do poderio armado dos grupos paramilitares em favelas, conjuntos habitacionais e loteamentos da cidade.

Não se pode dizer que todos os que se elegeram com votos concentrados em um determinado local estejam envolvidos com milícias ou tráfico, mas, diante das circunstâncias que envolvem certos nomes de políticos eleitos, o mapa eleitoral reforça o rumo das investigações e se torna mais uma evidência da atuação das milícias disse Marcelo Freixo, pouco antes de protocolar ofício no TRE com o pedido desse relatório eleitoral.

O cientista político João Trajano de Lima Sento Sé, do Laboratório de Análise da Violência da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), concorda:

O valor desses dados de votação se mede pelo seu peso no contexto dessa campanha municipal. É como se a política fosse um bom negócio para os negócios desses grupos criminosos que mantêm currais eleitorais. Um mandato político confere aos donos desses currais proteção e autoridade.

Milicianos foragidos

A Polícia Civil ainda está à caça de pelo menos seis pessoas que teriam participado da reunião na casa de Natalino na noite da segunda-feira, em Campo Grande, na Zona Oeste, interrompida pela chegada da polícia, recebida a tiros.

Natalino, preso em flagrante, é mantido em uma cela com cinco homens, em Bangu 8, penitenciária de segurança máxima na Zona Oeste para réus de nível superior, com cargo público ou policiais.