Documento liga tráfico ao curral da Rocinha

Renata Victal, Jornal do Brasil

RIO - Ata de reunião, apreendida na casa do chefe do crime local, ameaça quem não votar no candidato da favela

Todo empenho para o candidato da Rocinha, não aceito derrota!!! Ninguém trabalhando para candidato de fora/ não agendar visita/ não convidar para eventos e etc.. Este é o item seis da ata de uma reunião do tráfico na Rocinha. O documento foi encontrado na casa de Antônio Francisco Barbosa, conhecido como Nem, que controla o tráfico na favela durante uma operação policial na manhã de ontem.

Segundo o delegado da Delegacia de Roubos e Furtos de Automóveis (DRFA), Ronaldo de Oliveira, que comandou a ação, apesar de a ata não ser assinada, não há dúvidas de que o documento faz um ameaça velada aos moradores, o que caracterizaria a formação de um curral eleitoral.

Em entrevista ao JB no último dia 12, o presidente da associação de moradores da favela, Luiz Cláudio de Oliveira (PSDC), conhecido como Claudinho da Academia, revelou ser o único candidato a vereador da comunidade.

Ele disse que o Estado garante o direito de ir e vir e que não iria impedir a entrada de nenhum outro candidato. Confirmou ainda que a escolha dele entre todos os 120 mil moradores para ser o representante da favela na Câmara dos Vereadores tinha sido fruto de um movimento de lideranças locais para que ele pudesse ser a voz da comunidade .

Nesta quinta-feira, a reportagem procurou novamente por Luiz Cláudio, mas ele não retornou as ligações.

A ata diz que o traficante não aceita derrota e isso significa que se o candidato dele não for eleito, os moradores vão sofrer as consequências acredita o delegado Ronaldo. O Nem é bem claro em suas ameaças.

Mesmo sem ter a assinatura dele, o documento foi encontrado dentro da casa de três andares que ele tem perto da Cachopa.

Até agora apenas dois candidatos a prefeito fizeram corpo-a-corpo na favela: Jandira Feghali (PCdoB), que circulou apenas na parte baixa da comunidade, e Marcelo Crivella (PRB), que percorreu por duas horas a região, anteontem, sem qualquer problema.

O bispo da Universal é coligado ao partido de Luiz Cláudio, candidato da comunidade.

Não tive problema nenhum na Rocinha contou Jandira. Fui com os candidatos a vereador e líderes comunitários. O PCdoB tem uma tradição de trabalho nessas áreas populares.

Terça-feira, a candidata a vereadora Ingrid Gerolimich (PT) panfletou na favela, mas apenas porque conseguiu apoio da Polícia Militar. Ela havia sido avisada de que não deveria fazer campanha por lá.

Fiquei muito chateada porque algumas pessoas interpretaram a minha atitude, de cobrar segurança pública para levar minha campanha à Rocinha, como oportunismo desabafa Ingrid. Mas agora, com a apreensão dessa ata do tráfico, fica claro o que estava acontecendo.

Apoio irrestrito

Outro trecho da ata diz convidar os amigos que trabalha (sic) para outro político para a próxima reunião, quem faltar vai mandar buscar .

Além de marcar outra reunião, o traficante deixa claro que cada liderança precisa traçar uma estratégia detalhada para a campanha do candidato da Rocinha e que nenhum pedido dele pode ser negado.

O mesmo pensa o coordenador das Delegacias Especializadas do Rio de Janeiro, Alan Turnovsky.

O Nem está cobrando condutas de pessoas chamadas William, Walace e Valdemar e faz ameaças caso o candidato não seja eleito.

Apesar de não ter como afirmar que o William que aparece no documento é William de Oliveira, ex-presidente da Associação de Moradores da Rocinha que foi preso em 2005 por suposta ligação com o tráfico, em um dos trechos da ata, o traficante Nem diz que o seguinte: Qual o seu objetivo? Liderança institucional não é mais você .

Ao saber da ata, o coordenador do

Tribunal Regional Eleitoral do Rio, juiz Luiz Marcio Pereira, disse que vai pedir ajuda à PF:

Vamos solicitar que o material apreendido referente à ata seja encaminhado à PF. É prematuro fazer qualquer afirmação.