Exército esconde da polícia informações sobre o tráfico

Jornal do Brasil

RIO - O paiol de munição e armamento do Morro da Providência fica dividido entre quatro endereços: no número 48 da rua Bento Teixeira, no 109 da Ladeira do Barroso, no 145 da Ladeira do Faria e no 6 da rua Visconde da Graça. A informação consta do relatório confidencial preparado pelo serviço de inteligência do Exército. Mas, nos sete meses de ocupação da favela, os militares não apreenderam uma arma sequer dos 20 fuzis, uma metralhadora .30 e dois lança-rojões.

Os militares sabem ainda, com precisão, a localização da casa de cada um dos chefes do tráfico e estimam que entre 80 e 100 pessoas trabalhem nas diversas funções que a atividade ilícita movimenta. Mas, apesar de ter todas as informações, nenhum deles foi preso. O Comando Militar do Leste não comenta, mas o defensor público da União, André Ordacgy, considera o fato bem estranho:

O Exército não poderia mesmo exercer a função de segurança pública, a não ser que o governador pedisse ao presidente, o que não foi o caso atesta Ordacgy. Mas, se eles mapearam a comunidade e sabiam onde estavam todos líderes do tráfico, onde escondiam armas e vendiam as drogas, deveriam ter repassado as informações para a polícia do Rio. É muito estranho que não tenham feito isso.

A assessoria de imprensa da secretaria de Segurança Pública confirmou ontem não ter recebido nenhum documento do Exército sobre o Morro da Providência e a ação de traficantes no local. Para o defensor, a omissão do Exército soa ainda pior quando comparada a ação dos militares que entregaram os jovens para traficantes do Morro da Mineira:

O mais irônico é que o Exército exerceu o poder de segurança com o cidadão de bem, quando entregou os jovens aos traficantes do morro rival. Não dá para entender porque age de uma forma em uma situação e completamente diferente em outra.

O ex-secretário Nacional de Segurança Pública, Luiz Eduardo Soares, tem a mesma opinião.

É um absurdo e só reforça o equívoco que foi a própria operação do Exército no morro argumenta Soares. Os militares disseram que foram dar apoio ao canteiro de obras e fecharam os olhos. Foi uma típica intervenção eleitoreira, foi um teatro. Eles deveriam ter passado as informações para a secretaria de Segurança, mas, se fizessem isso, o projeto político do Crivella ficaria inviável porque a polícia teria de partir para o confronto.