Cesar Maia disse que reportagem foi feita de forma contundente

JB Online

RIO - O prefeito Cesar Maia comentou em seu ex-blog nesta segunda-feira o seqüestro e a tortura sofrida pelos repórteres do Jornal O Dia, por milicianos na favela do Batan, em Realengo, Zona Oeste do Rio. Maia ressaltou que a reportagem foi feita de modo contundente.

Veja na íntegra o que o prefeito disse no seu boletim eletrônico:

1. O seqüestro e tortura de repórteres do jornal carioca O DIA, por elementos do grupo para-policial que controla a comunidade onde estavam fazendo uma cobertura, ali vivendo temporariamente, transformou-se numa reportagem -de fato- mais contundente do que se tivessem narrado o cotidiano das relações dos para-policiais com os moradores.

2. Desde o início dos anos 90, quando os traficantes que controlam comunidades deixaram de ter raízes nas mesmas, ocupando-as militarmente, passaram a ter uma relação de terror com os moradores. Com isso, aquilo que se dizia do "efeito Robin Hood" da presença dos traficantes terminou. Por outro lado, a clandestinidade objetiva dos policiais fora de serviço, assassinados gratuitamente por traficantes por serem policiais, estimulou-os a encontrar local de moradia onde eles e suas famílias tivessem seguros.

3. Com isso construiu-se um quadro convergente entre moradores e policiais. Esses -organizados para-militarmente- passaram a expulsar os traficantes de várias comunidades sob o aplauso da população. Uma vez estabelecida uma "nova ordem", outros policiais se mudavam para esses locais e com isso passaram a ser uma tropa de reserva para o caso de traficantes tentarem retomar a comunidade.

4. A manutenção destes novos grupos passou a ser coberta com pagamento mensal pelos moradores e mais receitas obtidas de serviços diversos existentes no local, como cobrança de "segurança". Os primeiros casos produziram a sensação (que não havia com a presença de traficantes) de que as pessoas poderiam circular livremente por seus logradouros e que a relação com os moradores seria de "proteção".

5. A expansão desses grupos para-policiais foi mostrando relações crescentemente autoritárias com os moradores e a transformação da cobrança para cobrir as despesas em negócios do tipo extorsão para proteção.

6. O seqüestro dos repórteres mudou a natureza de sua reportagem. Eles poderiam -em tese- demonstrar, que mesmo ilegalmente, haveria um novo ambiente ali, que a ausência da polícia e o fracasso da segurança pública, impunham, quase que como um recurso do tipo, desobediência civil. Para muitos, de longe, essa era a impressão. Em tese, os repórteres poderiam ter chegado a esta conclusão.

7. Mas o que a reportagem (num paradoxo) -feita contundentemente- ao não ser feita, mostrou é que o direito de ir e vir inexistia e que as relações desses para-policiais ali, com os moradores, é também de terror. Portanto, um fato de extrema gravidade, pois reproduz a lógica do tráfico drogas, apenas trocando as fontes de receitas.