Cariocas atendem a apelo por doações de sangue e lotam HemoRio

Cecília Abreu, JB Online

RIO - Com o aumento em níveis alarmantes dos novos casos de dengue nos últimos dias houve também o crescimento da demanda por sangue, especialmente os concentrados de plaquetas, utilizados nos casos mais graves de dengue hemorrágica.

Diante disso, o Instituto Estadual de Hematologia Arthur Siqueira Cavalcanti, o HemoRio, no centro do Rio, lançou uma nova campanha de mobilização, que teve ampla cooperação dos cariocas nesse feriado. No entanto, o feriado mal começou e nesta Sexta-feira Santa o movimento no setor de doação voluntária foi intenso.

Com a afluência maior de doadores, especialmente no início da tarde, houve muita espera e um fluxo lento entre o registro inicial, a entrevista de triagem (avaliação da possibilidade ou não de doação) e a doação propriamente dita, no salão de coleta.

A espera prevista, anunciada em um cartaz no balcão de informações era de 65 minutos na parte da manhã, de 75 min entre 11 e 14h e de 50 min no período entre 14h e 18h. No entanto, pode-se constatar que doadores que se cadastram por volta das 12h só foram liberados após as 16h.

Os que já tinham feito doações anteriormente tinham o atendimento agilizado pela existência do registro prévio e eram encaminhadas diretamente para a triagem. Apesar disso, a espera não era inferior a duas horas no horário de pico.

Segundo os próprios funcionários, todos que estavam presentes trabalharam sobrecarregados, pois só os plantonistas foram escalados para este feriado. Os funcionários diaristas foram liberados, apesar de ter sido lançada a campanha.

À espera da Coleta

No salão de coleta há 12 conjuntos de duas cadeiras contíguas, permitindo que 24 doações se processem simultaneamente. Cada colhedor se responsabiliza por dois doadores, acompanhando todo o processo. No entanto, a equipe plantonista não ocupava mais do que 10 cadeiras ao mesmo tempo, o que tornava o fluxo de pessoas bastante lento.

De acordo com a enfermeira Gisele Cristina, chefe do setor de coleta, a média diária de doações oscila entre 280/300 bolsas e nesta sexta-feira, até às 16h20, já haviam sido feitas 520 doações.

- O aumento da coleta traz grande alívio, devido à situação emergencial que a cidade vive atualmente, mas é fundamental que as pessoas se conscientizem da necessidade de manter a regularidade das doações, para que não ocorram carências tão profundas como a que se teme no momento. Com relação à demora, estamos vivenciando uma situação atípica. O serviço costuma ser bem mais rápido. Estamos com poucos funcionários . Não esperávamos que tanta gente viesse fazer doações e não foi feito um esquema especial para uma demanda tão grande declarou Gisele.

Moradores denunciam situação de risco em bairros da cidade

Entre os doadores que aguardavam seu momento de colaborar com uma pessoa necessitada, havia um grande grupo de moradores do bairro de Cordovil, situado na Zona Norte do Rio. Entre os quais Oscar Taborda de Oliveira, de 32 anos, e sua esposa Monique, de 22 anos todos parentes ou vizinhos da menina Stefany Góes Penha, de 6 anos, que está internada na UTI do Hospital Fernandes Figueira, com complicações de dengue hemorrágica e necessitando urgentemente de sangue.

Os moradores de Cordovil destacam que há muitas pessoas com dengue na Rua Joaquim Rodrigues, onde há um terreno baldio, abandonado e com mato alto, e que há muito tempo não passa o fumacê, nem qualquer autoridade comeptente. Além disso, na Rua Oliveira Melo, número 710, há uma caixa d´água aberta, sem uso, e que os donos da casa ainda não tomaram qualquer providência para sanar o problema.

Uma família de Jacarepaguá, sensibilizada pela epidemia de dengue, resolveu comparecer ao HemoRio e fazer a doação, pois este Instituto distribui o sangue para todos os hospitais. Amanda de Oliveira Ribeiro, de 19 anos, sentiu-se frustrada ao descobrir que não poderia fazer a doação por se encontrar no período menstrual.

Somente após longa espera, ao passar pela triagem, soube que teria que voltar para casa. Ela reclama mais esclarecimento prévio, para que as pessoas não façam a viagem à toa.

Thais de Oliveira Ribeiro, de 22 anos, diz que já doou sangue outras vezes, mas que é a primeira vez que doa no HemoRio. Ela considera o atendimento muito lento e com poucos funcionários trabalhando.

- É melhor fazer campanha o ano todo e em todos os hospitais e institutos de coleta, e não só em situação de epidemia. Assim, não vem todo mundo ao mesmo tempo. É preciso investir e melhorar o atendimento, para não desestimular as pessoas que se dispõem a cooperar - afirmou.

Elisa Pinto, de 54 anos, moradora do Cosme Velho, também se preocupa com uma casa que está fechada há anos, na rua Cosme Velho, entre o numero 315 e a Sociedade Taoísta. _ Há muito tempo não há limpeza do quintal, há restos de madeira e um telhado quebrado, muitos possíveis focos. Vejo da minha janela e me preocupo sempre.

Apesar das reclamações e das constatações de morosidade e sobrecarga no HemoRio durante a Sexta- Feira Santa, é inegável que houve uma resposta positiva da população, solidária com as pessoas atingidas gravemente pela dengue.

Antônio Guimarães Sá, médico de 57 anos e também doador, sugere que sejam veiculados vídeos durante o tempo de espera, intercalados com a programação normal da televisão, com a finalidade de esclarecer a população acerca da importância do ato de doar sangue e também sobre os procedimentos. Para Antônio, essas apresentações ajudariam a dinamizar as informações contidas nos folders disponíveis na saída da sala de coleta.

- Os informativos poderiam ser distribuídos antes, na sala de espera, ajudando a elucidar dúvidas e diminuir temores de quem se dispõe a esse ato de solidariedade pela primeira vez declarou o médico.

O Hemo Rio fica na Rua Frei Caneca, 8 , no Centro do Rio. O instituto recebe doações de sangue diariamente, das 7 às 18h, inclusive aos sábados, domingos e feriados. Para doar sangue, basta ter mais de 18 anos, pesar mais de 50 Kg e apresentar-se com documento oficial, com foto. Não se deve doar sangue em jejum, devendo apenas evitar alimentos gordurosos próximo ao momento da doação.

Por que é tão importante doar sangue?

O sangue doado (uma bolsa tem entre 400 e 500 ml) é processado e fracionado em parte protéica (plasma), vermelha (hemácias) e plaquetas, que atuam na coagulação do sangue.

A obtenção das plaquetas necessárias para uma bolsa de concentrado pode exigir o sangue de vários doadores (entre 6 e 8). Já a transfusão de hemácias requer menos doadores (entre 1 e 2 em transfusão para adulto)

Portanto, como os doentes de dengue hemorrágica precisam de plaquetas, especialmente, a demanda por doações cresce cada vez mais.