Hospital no Rio é pioneiro no tratamento de asma na América Latina

Débora Motta, Agência JB

RIO - Falta de ar, tosse e aperto no peito são sintomas freqüentes da asma, doença inflamatória crônica das vias aéreas que atinge 20% da população do país - cerca de 40 milhões de brasileiros. O prejuízo causado por esse mal para a saúde pública surpreende. Conhecida também como bronquite, a asma é responsável por 1,4% do gasto total anual do Sistema Único de Saúde (SUS) com todas as doenças no Brasil e ocupa o terceiro lugar no ranking dos gastos do SUS com internações hospitalares (um custo de aproximadamente R$ 96 milhões), ultrapassando doenças como diabetes e hipertensão.

- No Brasil, 10 pessoas morrem todo dia devido à asma e 350 mil são internados por ano devido a crises. Se considerarmos mortes por insuficiência respiratória, esse número cresceria. A gravidade da doença é pouco divulgada - ressalta a Dra. Marina Lima, responsável pelo Centro de Tratamento de Asma de Difícil Controle (CTADC) do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCFF).

A pneumologista é uma das coordenadoras do CTADC do Hospital Universitário da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Inaugurado em julho deste ano, o Centro de Tratamento de Asma de Difícil Controle é o primeiro na América Latina voltado exclusivamente para pacientes com nível complexo da doença e oferece atendimento gratuito.

- O formato do Centro é único porque só atendemos pessoas que comprovem através de laudo médico que têm casos de difícil controle de asma, ou seja, que não reagem a medicamentos tradicionais como broncodilatadores e corticóides inalatórios, ainda que em doses altas. A intenção é que os casos mais leves sejam tratados em postos médicos para podermos atender à grande demanda de pacientes no HUCFF - explica Dra. Marina.

- O objetivo é centralizar o tratamento desses pacientes com quadro grave. Nossa assistente social entra em contato com outros hospitais, onde eles já se trataram, para pedir cópias de exames e prontuários. Partindo do histórico do paciente, conseguimos prever problemas - acrescenta.

O CTADC se destaca no Estado por desenvolver pesquisas para casos difíceis de asma com a aplicação subcutânea de um novo medicamento, o omalizumabe (anticorpo da alergia). O Centro, que atende cerca de 500 asmáticos, faz testes para evitar os broncoespasmos dos pacientes, ou seja, a contração da musculatura que leva ao fechamento do pulmão e à falta de ar.

- Estamos testando há oito meses a inserção de um cateter na realização da broncoscopia, exame que permite a visualização interna do sistema respiratório através de um aparelho com fibras óticas. Esse cateter libera uma energia térmica capaz de afinar a musculatura lisa peribrônquica, músculo de defesa que todos nós temos e que, nos asmáticos, se contrai demais (broncoespasmos) e leva à falta de ar - explica.

- Caso o uso desse cateter na broncoscopia surta efeitos positivos, os asmáticos terão suas crises amortizadas significativamente - avalia a Dra. Marina, uma das investigadoras do projeto de pesquisa, que tem previsão de conclusão em cinco anos.

A asma depende da interação entre fatores genéticos e ambientais e, ao contrário do que prega o senso comum, não se manifesta só na infância.

- É uma doença hereditária, mas precisa de um ambiente alérgico propício para se manifestar. Ela independente da faixa etária e pode vir com maior ou menor intensidade. Antigamente, os médicos acreditavam que a asma tinha que aparecer na infância. Hoje sabemos de casos em que ela só aparece na terceira idade. Muitas vezes esses casos ficam sem diagnóstico porque os médicos não têm essa noção - disse.

- A intensidade da asma é multifatorial e depende do ambiente. A asma é uma grande inflamação do pulmão causada por mais de 30 deflagadores, como cigarro, estresse, poluição ambiental ou fator emocional. Até uma gargalhada pode deflagrar uma crise - revela a médica.

Crises recorrentes

Além dos custos para a saúde pública e do aumento da mortalidade, a asma prejudica a qualidade de vida dos pacientes. Isso significa que, em todo o mundo, 300 milhões de pessoas têm um rendimento profissional e a vida pessoal afetados pelo incômodo que a doença provoca. Pamela Félix Nobre, de 22 anos, sofre de asma de difícil controle desde criança e já experimentou diversos antibióticos. A estudante já foi internada inúmeras vezes.

- Já passei até sete meses seguidos internada devido às crises de asma freqüentes. No terceiro período da faculdade de Letras, tive que parar de estudar porque fiquei três meses internada com infecção bacteriana. Até hoje não consegui me formar. Não saio de casa sozinha porque nunca sei quando vou ter a próxima crise. Já tive que parar no meio da rua, sentar no meio fio com falta de ar e ficar só, com a minha bombinha - conta.

Pamela é uma das pacientes que são atendidas no Hospital Universitário e não é internada desde julho. Para ela, o curto período é uma vitória. Depois de sete meses de tratamento, ela conseguiu comemorar seu aniversário (no mês de agosto) longe das internações, pela primeira vez na vida.

- Para mim é um grande passo porque desde que eu nasci sofro com o problema. Quando eu era criança tinha que ir ao hospital fazer tratamento todo o dia porque não tinha nebulizador nem a medicação adequada disponíveis. Até perdi a conta de quantas vezes fui internada. Tenho facilidade para desenvolver infecções no trato respiratório, como sinusite, amidalite e pneumonia. As mudanças de tempo pioram esse quadro - diz a paciente.

- Sou uma das pacientes que participa da pesquisa com omalizumabe no Hospital do Fundão e consegui um apoio de um laboratório para ganhar o medicamento de graça. Preciso tomar seis injeções do remédio por mês e cada ampola custa R$ 2 mil. Não consegui auxílio do Estado para o medicamento - contemporiza.