O verdadeiro aliado

Gabriela Lapagesse, Agência JB

RIO - Os novos alvos estão bem definidos. Desta vez, a polícia procura Antônio José de Souza Ferreira, o Tota, e Márcio da Silva Lima, o Tola, respectivamente, chefes do tráfico no Complexo do Alemão e da favela da Coréia, em Senador Câmara, na Zona Oeste. E para atingir mais esses alvos, claro, não poderia faltar a ajuda da ONG que já se transformou no verdadeiro portal de informações da população, o Disque-Denúncia.

Há 12 anos em funcionamento e com o telefone já bem difundido entre os cariocas, o sistema oferecido pelo Disque-Denúncia tem ajudado a polícia a encontrar os criminosos mais procurados com eficácia e rapidez, garantindo o anonimato e, por muitas vezes, oferecendo recompensas. Segundo a coordenadora da instituição, Adriana Nunes, a participação da população se dá pelo simples prazer de ajudar.

- Recebemos em média 350 denúncias por dia. Percebemos facilmente que as pessoas querem mesmo é ajudar. Ou seja, o nosso grande aliado é o anonimato. Por exemplo: o último grande caso que conseguimos ajudar foi na prisão do traficante Joca, que era chefe do tráfico na Rocinha, e foi detido em um aeroporto no Ceará. Recebemos muitas informações das pessoas da própria comunidade porque ele já tinha estuprado e matado duas meninas de lá. As pessoas se revoltaram e ligaram - informou.

Em tanto tempo de atuação, muitos são os casos em que foram oferecidas recompensas para informações que realmente ajudasse à polícia a encontrar o paradeiro dos procurados. Já foram R$140.800,00 pagos. Atualmente, oferece-se R$ 10 mil para quem souber onde Tota está escondido. De acordo com Adriana, o caso de maior repercussão ao longo desses 12 anos, foi o esconderijo de Fernandinho Beira-Mar. Em 2001, oferecia-se R$100 mil por dados chaves que fizessem com que os agentes pudessem encontra-lo. No entanto, a quantia mais alta paga até hoje foi de R$ 10 mil, em 2000, para uma pessoa que informou onde estava o traficante conhecido como Neguinho Dan, que havia matado a estudante Ana Carolina Lino, em abril de 1998, na saída do Túnel Santa Bárbara, em Laranjeiras.

Outros tantos casos tiveram muita repercussão, como a descoberta de quem seriam os responsáveis pela chacina na Baixada Fluminense, em março de 2005, ou a busca por Elias Maluco, culpado pela morte do jornalista Tim Lopes, em junho de 2002. Mas uma barreira na qual o Disque-Denúncia esbarra é o trote, pessoas que ligam para a central de atendimento com falsas dicas.

- Recebemos, sim, alguns trotes. Mas não é a gente que verifica a veracidade das informações recebidas. Apenas as recebemos e repassamos para a polícia. Para falar a verdade, o fato de a ligação ser paga como qualquer outra local já funciona como uma espécie de filtro. Isso inibe os trotes. Se fosse de graça, receberíamos bem mais explica Adriana.

Comprovando o sucesso da proposta e a adesão da população à instituição, já cresceu em 6% o número de denúncias feitas no primeiro semestre deste ano em relação ao mesmo período de 2006, com cerca de 92 mil ligações e 190 denúncias diferentes. Mas não são informações apenas relacionadas ao tráfico de drogas que os 46 atendentes do Disque-Denúncia recebem. Por conta da demanda enorme relacionada a variados assuntos, foram criados outros núcleos, como o de Meio Ambiente, violência doméstica e roubo e furto de veículos.

- O tráfico de drogas é, indiscutivelmente, o assunto que mais faz com que as pessoas liguem para a gente. Mas o furto de carros e a violência doméstica recebem cerca de 8% das nossas ligações. Por conta dessa procura enorme, foi necessário criar novos núcleos, até mesmo para que essas questões sejam melhor tratadas e que os nossos atendentes também possam ser mais bem orientados com focos diferentes enfatiza a coordenadora.

Com toda a ajuda recebida pelos cariocas até hoje, segundo Adriana Nunes, foi traçado um perfil dos denunciantes que, segundo ela, surpreendeu.

- Fizemos um estudo e descobrimos que as pessoas que ligam para o 2253-1177, nosso número do Disque-Denúncia, têm, em média, entre 26 e 43 anos, são de classe média, tendendo para as mais humildes. Mas o que chama mais a atenção é que se tratam de pessoas com valores morais muito bem definidos, fortes. Isso é interessante, até porque essas tantas pessoas contrariam a pequena margem de trote que recebemos. O que é importante é que os denunciantes que percebemos nesse estudo utilizam o serviço com responsabilidade, para ajudar mesmo. É isso que esperamos dos cariocas, é para isso que o serviço existe explica Nunes.