Não nos comprometam

O terceiro debate na TV entre os candidatos ao governo do Rio de Janeiro realizado, ontem, pelo SBT, em parceria com o jornal “Folha de S.Paulo” e o portal de notícias UOL, foi acalorado como os demais, mas pegou fogo mesmo depois que se encerrou, com a divulgação de uma nova pesquisa do Ibope sobre a corrida para o Palácio Guanabara. No primeiro levantamento do instituto de pesquisa, divulgado no dia 17 passado, uma semana após o primeiro turno das eleições, Wilson Witzel (PSC) apareceu com 60% dos votos válidos, enquanto Eduardo Paes (DEM) somava 40%. Na pesquisa divulgada ontem, a diferença de 20 pontos percentuais caiu para 12 pontos, com Witzel descendo para 56% dos votos válidos e Paes subindo a 44%. O crescimento registrado de quatro pontos percentuais do ex-prefeito do Rio foi acima da margem de erro, que é de três pontos para mais ou para menos. Contratada pela TV Globo e pelo jornal “O Globo”, a pesquisa ouviu 1.512 eleitores em 41 municípios fluminenses entre os dias 20 e 23 de outubro de 2018, e foi registrada no Tribunal Superior Eleitoral sob o protocolo BR07484/2018.

O debate de ontem no SBT voltou a ser marcado pela falta de discussões sobre propostas e pela troca de acusações, sem a apresentação de fatos novos. No segundo e no terceiro blocos, quando os jornalistas convidados sabatinaram os candidatos, a expectativa era de que houvesse espaço para o confronto de ideias, entretanto, mais uma vez os candidatos tiveram que enfrentar saias-justas, ao responder a perguntas que cobravam seu posicionamento com relação a fatos recentes da política nacional. Receando comprometer votos a essa altura da campanha, os dois adotaram uma atitude defensiva e tergiversaram sobre os questionamentos, evitando expor posição a respeito das polêmicas levantadas.

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Indagados sobre o que pensam a respeito de declarações polêmicas de Jair e de Eduardo Bolsonaro, Witzel e Paes desconversaram e não responderam as perguntas (Foto: Bruno Kaiuca/ Jornal do Brasil )

O presidenciável Jair Bolsonaro (PSL) e seu filho do meio, Eduardo Bolsonaro (PSL), deputado federal reeleito por São Paulo para o mandato que se inicia em 2019, foram mencionados nessas perguntas e acabaram provocando os momentos mais constrangedores: como Witzel não conta com o apoio ostensivo do clã nem Paes quer arriscar aparecer como oposição aos Bolsonaro, os dois não responderam as indagações. A primeira foi feita pelo repórter Ítalo Nogueira, da “Folha de S.Paulo”, que lembrou declarações polêmicas do candidato do PSL à Presidência da República, como a de que vai dar ponto final a todos os “ativismos” no país e criminalizar as ações do Movimento Sem Terra (MST) como terrorismo, e perguntou se Paes acreditava que Bolsonaro respeitasse o contraditório na política. O ex-prefeito voltou a lembrar que mantém com o deputado federal uma relação cordial e disse que não comentava “notícias que deram por aí”.

Sílvia Ribeiro, do portal UOL, lembrou as declarações de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) de que atacar o Judiciário é atacar a democracia — em referência a um vídeo viralizado na internet em que Eduardo Bolsonaro afirma que “para fechar o STF basta apenas um cabo e um soldado” — e perguntou a Wilson Witzel se ele, como ex-juiz, concordava com a fala dos ministros. Witzel destacou que os integrantes do Supremo tinham o dever de se manifestar, mas que o ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ) João Otávio Noronha já havia “minimizado” as declarações do deputado reeleito.

No terceiro bloco, a maioria das perguntas dos jornalistas continuou a ser respondida pela “tangente”. Witzel não opinou, quando instado, sobre declarações de Jair Bolsonaro que “relativiza” a atuação de milicianos. Preferiu prometer que, no seu governo, “as milícias serão combatidas”. Sobre operações policiais, Paes afirmou que o investimento em inteligência vai ajudar na prevenção ao crime e favorecer que o trabalho seja feito de forma mais “cirúrgica”. Em uma pergunta sobre transporte, prometeu “colocar para funcionar” o teleférico do Complexo do Alemão e regulamentar os chamados “cabritinhos” — kombis e vans que circulam em morros da cidade onde ônibus não entram — para facilitar os deslocamentos nas comunidades. Já Witzel prometeu, “em aumentando a receita” do estado, começar uma negociação com os servidores públicos para implementar um plano de cargos e salários, principalmente, para os professores. O candidato do partido cristão foi indagado sobre se sua política de segurança de “atirar para matar” vai aumentar o número de mortes entre a população negra. Como resposta, afirmou que vai aprimorar o treinamento dos policiais, implantar o monitoramento eletrônico e fazer ações em horários adequados para evitar mortes de inocentes.

Quanto às tradicionais provocações, elas começaram logo na primeira pergunta de Paes a Witzel no primeiro bloco, ao mencionar a relação próxima que o ex-juiz mantém com o advogado Luiz Carlos Azenha, que defendia Nem quando escondeu o traficante dentro do carro para tentar escapar de um cerco policial: “Na troca de mensagens de WhatsApp entre vocês dois, você diz para ele pegar dinheiro em sua casa. Como você explica isso?”. Witzel respondeu que Azenha havia pedido ajuda e o ex-juiz o indicou a um amigo. Paes voltou ao ataque, lembrando que, depois que deixou de ser juiz, Witzel advoga para o pastor Everaldo (presidente do PSC), para o empresário Mario Peixoto e para Hudson Braga (ex-secretario de Obras do governo Sérgio Cabral), um investigado, o outro indiciado e o terceiro condenado após denúncias da Lava Jato: “Não é esquisito deixar de ser juiz e advogar para essa turma?”. Witzel negou as acusações: “Mais uma fake news do meu adversário que já foi condenado pelo TRE (Tribunal Regional Eleitoral) sete vezes por divulgação dessas fake news durante a campanha”.

Nas considerações finais, os dois candidatos voltaram a explorar as fragilidades um do outro. Paes lembrou que é experiente na política, que todos o conhecem e sabem bem de sua capacidade, ao contrário do rival “que ninguém conhece, e que quanto mais se conhece pior fica”. Witzel disse que representava a novidade na política e voltou a acusar o adversário de pertencer ao grupo político que “levou o Rio a enfrentar a sua maior crise”.

 

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