Municiado por reportagem que associa advogado de traficante a Witzel, Paes volta a atacar ex-juiz, que desconversa

O segundo debate na televisão entre os candidatos ao governo do Rio de Janeiro realizado, ontem, pela TV Record mostrou mais do mesmo. Wilson Witzel (PSC) e Eduardo Paes (DEM) voltaram a trocar as mesmas acusações de encontros anteriores. No primeiro bloco, apesar do tema das perguntas partir da produção do programa, Paes procurou falar sobre Luiz Carlos Azenha por conta de uma reportagem publicada ontem, pela revista “Veja”, que revelou grande proximidade entre o ex-juiz e o advogado que ajudou o traficante Nem da Rocinha a fugir de cerco policial, ao escondê-lo na mala de seu carro, e foi condenado a dois anos de reclusão em regime aberto por esse episódio e por corrupção ativa, já que, na ocasião, tentou subornar os policiais que o abordaram. Witzel desconversou e não respondeu diretamente às acusações. Preferiu chamar, por várias vezes, seu opositor de “mentiroso” e “nervosinho”.

No primeiro bloco, caiu para Paes perguntar para Witzel sobre o legado Cabral/Pezão: “Você que posa de caçador de bandidos, qual sua relação com Azenha?”, perguntou. “O tema é Cabral/Pezão que você conhece bem. Está fugindo da pergunta. Eu falo por mim. Você está disputando a eleição sob liminar. Você é continuidade, tanto que na capital perdeu para mim”, retrucou Witzel. “Vamos diminuir a arrogância. A matéria da “Veja” fala que o Azenha fazia até pedido de doação em dinheiro para a sua campanha. É cheia de relação comercial. Ele disse, inclusive, a seguinte fase: ‘Ele é pior do que o Nem’, se referindo a você”, rebateu Paes.

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Paes voltou a questionar Witzel sobre relação com o advogado do traficante Nem: "Ele fazia até pedido de doação para sua campanha". O ex-juiz rebateu: "Prefeito fake" (Foto: Paulo Mazer/Record TV/Divulgação)

Entre uma alfinetada e outra, Paes falou que aposta no transporte sob trilhos e nos BRTs. Que, se eleito, pretende replicar no estado as clínicas da família que criou quando era prefeito do Rio e estabelecer parcerias com municípios para implantar creches. Witzel afirmou que vai abrir ruas nas comunidades para facilitar o acesso de segurança e serviços em resposta a uma pergunta sobre política de esporte para jovens. Sobre a Uerj, disse que pretende integrar a universidade à pesquisa.

No segundo bloco, os candidatos responderam individualmente a quatro perguntas formuladas por telespectadores selecionadas pela coordenação do debate. Logo na primeira pergunta sobre combate à corrupção, o clima voltou a esquentar. Paes lembrou os oito anos na Prefeitura do Rio e afirmou que em nenhum dos casos investigados pela força-tarefa da Lava Jato haveria menção a problemas com sua gestão, enquanto Witzel advogaria para Hudson Braga, ex-secretário de Obras do governo Cabral, que está preso. Witzel respondeu que a “Prefeitura foi uma incubadora de corruptos” e citou a delação de Alexandre Pinto, condenado há 20 anos de prisão por fraudes nas obras do BRT, em que o ex-prefeito é acusado de combinar as propinas de dentro do gabinete.

Num questionamento sobre a política de segurança pública, Witzel negou que advogasse para Hudson Braga e que fosse “empregado do Pastor Everaldo”, como afirmou Paes: “Sou advogado do PSC, e não sou empregado do pastor, mas do partido”. Paes repetiu o ataque: “É empregado, sim, chama de patrão. Toda vez que ele é denunciado e corre o risco de ser preso, você vai lá evitar que ele vá para a cadeia”.

As duas últimas perguntas do segundo bloco foram sobre como estimular adolescentes a completar o ensino médio e sobre como recuperar os hospitais públicos. Witzel mencionou o fato de ter tido o “privilégio” de contar com o ensino público para “chegar onde chegou” e disse que, caso seja eleito, vai cancelar seu plano de saúde, “para dar exemplo”. Paes considerou a declaração do adversário de “inacreditável”: “Ouvir isso é inacreditável. Quando ele era juiz e teve a oportunidade de abrir mão de privilégios, recebia R$ 4 mil por mês de auxílio-moradia, mesmo tendo apartamento próprio no Grajaú. Isso deu meio milhão de reais num ano”.

No bloco seguinte, com a possibilidade de troca de perguntas entre os candidatos, Witzel indagou o adversário sobre o porquê de Paes ter o apelido de “nervosinho” — suposta alcunha do ex-prefeito na lista de pagamentos de propina da empreiteira Odebrecht. O candidato do DEM respondeu atacando: “Tenho vida limpa. Eu falo que você anda com bandidos. É você que estou acusando de andar com bandido”, no que Witzel rebateu afirmando que “nervosinho” é como Paes “aparece na planilha da Odebrecht”.

Paes voltou a trazer Azenha para o debate e pediu para o ex-juiz explicar que serviço teria sido prestado pelo advogado para ele, uma vez que, em uma troca de conversas no Whatsapp, Witzel avisa ao advogado que não vai “depositar”. “É comum advogado presentar clientes. Ele [Azenha] já respondeu pelos seus atos. Ele defendeu um cliente em Itaperuna”, respondeu Witzel. “Para quem dizia que não tinha relação com Azenha, que era só um ex-aluno. O Azenha é comparsa do Nem. Cuidado com esse lobo em pele de cordeiro”, disse Paes, que chamou Witzel de “empregadinho do Everaldo [Pastor Everaldo, presidente do PSC]”.

Paes também perguntou qual seria a relação de Witzel com o empresário Mario Peixoto, investigado por suposta propina ao Tribunal de Contas do Rio (TCE-RJ). O candidato do PSC chamou o opositor de “prefeito fake”, citou a delação de Alexandre Pinto, ex-secretário de obras do então prefeito Paes. Disse que nunca esteve na Itália, mas não respondeu a pergunta, no que Paes afirmou: “Você é amigão do sócio do [Jorge] Picciani. Seu sócio Lucas Tristão é representante legal do Mário Peixoto”. Paes voltou a citar o vídeo sobre o evento de campanha de Witzel, em que a placa em homenagem à vereadora Marielle Franco foi quebrada. O candidato do PSC contra-atacou: “Tem um vídeo em que você aparece fazendo elogio à milícia que, possivelmente, foi quem matou Marielle”.

Nas considerações finais, Paes deu uma trégua a Witzel e preferiu destacar sua experiência à frente da Prefeitura do Rio, mas o ex-juiz, a quem coube a palavra final, não desperdiçou a oportunidade de encerrar o debate de maneira mais incisiva, dizendo que pretende “perseguir todos os corruptos que estão ao lado do grupo do rival e varrer do estado a corrupção”.

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