Chapéu de couro por votos

Ex-juiz Wilson Witzel visitou o Centro de Tradições Nordestinas

A mistura de dezenas de bandeiras verdes e vermelhas no acesso ao Centro de Tradições Nordestinas, no Campo de São Cristóvão, na manhã de ontem, dava a tônica da disputa eleitoral. Enquanto correligionários do candidato ao governo do estado pelo PSC, Wilson Witzel, o aguardavam, militantes do Partido dos Trabalhadores defendiam a candidatura de Fernando Haddad à presidência, em clara oposição ao presidenciável Jair Bolsonaro (PSL), apoiado por Witzel. Enquanto foram xingados de “fascistas”, os seguidores de Witzel revidaram com “Lula ladrão!”

Ao chegar, Witzel foi questionado sobre o vídeo publicado pelo colunista Lauro Jardim, no site do jornal O Globo, no qual aparece orientando juízes trabalhistas a fazerem uma manobra administrativa para conseguir abocanhar, indevidamente, a “gratificação de acúmulo”, que rende R$ 4 mil a mais em seus salários. Apesar da repercussão, o ex-juiz minimizou o material.

Macaque in the trees
Cercado por correligionários, o candidato do PSC Wilson Witzel prometeu apoio à Prefeitura para realização de melhorias na Feira (Foto: Bruno Kaiuca )

“Os juízes já se manifestaram, o presidente da Associação de Juízes Federais já manifestou seu repúdio porque todas as verbas recebidas pelos juízes federais são de acordo com a lei, com as resoluções do Tribunal, do Conselho da Justiça Federal e auditadas pelo Tribunal de Contas da União”, disse. Para ele, se a medida “não é ilegal, também não é imoral”.

“O conceito de legalidade está na Constituição. Então, o de moralidade também. Não há questionamento para aquilo que é imoral, se assim estiver na lei. Já o que não está na lei e é recebido, este sim é imoral”, disse ele, que em vídeo deixou claro que exigia que seu juiz substituto se ausentasse da vara durante 15 dias por mês para justificar o recebimento do adicional.

A chegada tumultuada de seus correligionários, que não pagaram ingresso para entrar no Centro de Tradições Nordestinas, foi alvo de críticas de muitos visitantes do local. Devido ao grande número, a Feira liberou a entrada dos correligionários de Witzel por um espaço sem roleta. O que não impediu empurra-empurra. A aglomeração fez com que um dos seguranças do candidato afastasse um cavalete de ferro, facilitando a entrada.

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Militantes do PT panfletavam na entrada do Centro de Tradições Nordestinas quando Witzel apareceu. Vestidos de vermelho, chamaram o candidato do PSC de "fascista", e ouviram que o ex-presidente Lula era um "ladrão" (Foto: Bruno Kaiuca )

“Já começou mal, porque todos viram que nem ingresso ele pagou”, observou o servidor público baiano Mateus Alves, de 31 anos. “Para mim, a visita dele a este reduto nordestino é incoerente porque ele apoia Bolsonaro, que é xenófobo. O absurdo é tão grande que Bolsonaro esteve no Nordeste, usou chapéu de couro e depois demonstrou nojo. O Nordeste votou com o PT, porque foi no governo deste partido que melhorou a vida do povo nordestino. Na Bahia, só tínhamos uma universidade federal. Depois do governo PT, recebemos mais quatro. O mesmo aconteceu com os institutos federais de educação, que saltaram de cinco para 20”, disse.

Witzel aproveitou a visita para se eximir de qualquer acusação de xenofobia.

“Já é a terceira vez que estou aqui durante a campanha. Mas, antes disso, já tinha vindo várias vezes com a minha família. Minha mulher, Helena, tem familiares em Sobral (CE). Tenho um carinho muito especial pelo povo nordestino. Aqui é um centro que precisa ser recuperado e, assim que eu assumir como governador, vou conversar com o prefeito pra gente melhorar isso aqui”, prometeu ele.

A cobrança não tardou e veio dos versos dos repentistas: “Ficaremos tão contentes/Se Wilson competente/ Trouxer água da Cedae/ E tem que ser água de primeira”, cantarolaram, em referência aos problemas referentes ao abastecimento de água enfrentados pelo Centro, que teve seu fornecimento de água cortado no ano passado, por inadimplência. Desde então, o abastecimento passou a ser feito por carros-pipa e, segundo feirantes, alvo de racionamento.

Ali na praça dos repentistas, Witzel subiu no palco e fez seu apelo: “Tenho muito amor e quero ser governador”. Sua apresentação, ao lado de apoiadores, irritou um grupo alunos da Faculdade de Letras, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que expunha ali literatura de cordel – um trabalho sobre preconceito linguístico.

“Não tiveram educação. Saíram levando tudo sem perguntar se podiam. Levaram o material da literatura de cordel e até garrafinhas de cajuína que trouxemos”, reclamou a estudante Luiza Bonfim, de 19 anos.

Ao longo da passagem pela feira, cada barraqueiro fez seu o apelo. O paraibano João Florêncio, de 72 anos (50 deles vividos ali), deixou clara sua necessidade.

“Tem que tirar o Rio da crise, porque tá complicado”, apelou ele, que mantém loja de castanhas e outros artigos da região Nordeste. “Com o estado em crise, o povo não compra, a gente não ganha, a vida não anda”, sintetizou.

Os funcionários da loja também se mostraram favoráveis ao candidato do PSC: “Temos que alinhar o governador com o presidente. Por isso, escolhi Witzel e Bolsonaro. Estamos em busca de mudanças. Já elegi o PT em outros anos”, defendeu o atendente Tiago da Silva, de 33 anos.



Cercado por correligionários, o candidato do PSC Wilson Witzel prometeu apoio à Prefeitura para realização de melhorias na Feira
Militantes do PT panfletavam na entrada do Centro de Tradições Nordestinas quando Witzel apareceu. Vestidos de vermelho, chamaram o candidato do PSC de "fascista", e ouviram que o ex-presidente Lula era um "ladrão"