Jornal do Brasil

Rio - Eleições 2018

Alerj de volta ao passado: Sociólogo diz que eleições devem reforçar tradição clientelista e corrupta

Jornal do Brasil ROGÉRIO DAFLON, rogerio.daflon@jb.com.br

Sociólogo e cientista político da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o professor Paulo Baía avisa: a tão sonhada renovação política vai passar longe da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). Segundo ele, as práticas dos parlamentares a partir de janeiro de 2019 deverão ir mais na direção do passado e, não à toa, ele as atribui a um neochaguismo, numa alusão a Chagas Freitas, governador que, nos anos 1970 e 1980, dominou a política fluminense com um ritmo cadenciado pelo clientelismo. O professor vê o atual cenário com pessimismo e com a impressão de um déjà vu, como a uma série de TV sem grandes novidades, iniciando nova temporada. O espectro de Sérgio Cabral (MDB-RJ) e Jorge Picciani (MDB-RJ), para ele, permanece, embora ambos estejam hoje mais atrelados à crônica policial. MDB, DEM e PT, na visão de Baía, vão formar a maioria na Alerj, tendo a previsível e ruidosa oposição do PSOL e do PRB, do prefeito Marcelo Crivella — neste caso, por conta da proximidade das eleições municipais em 2020.

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A Alerj tende a repetir práticas que vêm sendo feitas desde 1995. E isso envolve corrupção e ações administrativas nebulosas" (Foto: Bruno Kaiuca)

Na visão do senhor, qual será o perfil da Alerj após as eleições? Haverá algum nível de renovação?

Não haverá uma grande renovação. Existem 70 vagas em jogo na Alerj. Entre os candidatos, 36 têm chance de reeleição. Esse pleito privilegiou quem tem mandato. Os parlamentares possuem recursos garantidos das direções partidárias. Quem não é parlamentar tem de estar ligado a esses grupos. Há, por exemplo, ex-prefeitos conectados às máquinas partidárias. Ressalta-se também que 11 deputados estaduais são candidatos a deputado federal, com chances de chegar ao Congresso.

Há como prever quais serão os partidos a formar maioria?

O MDB deve eleger oito deputados estaduais. Pode-se dizer que o DEM e o PT também devem ficar em torno de oito. PR, PP e PTB também terão algum destaque. São partidos que formam a maioria na Alerj, e há uma tendência de manutenção desse cenário, sendo o PDT um caso à parte, porque há deputados deste partido que votam com a maioria e outros, não. Quanto à formação das minorias, o PSOL quer crescer de três para seis parlamentares. Bem-sucedido na Câmara Municipal no pleito de 2016, o PSOL, contudo, está com dificuldade em 2018. Já o partido do Jair Bolsonaro, PSL, vai crescer no estado.

Qual o peso do deputado Jair Bolsonaro na eleição estadual?

Na cauda do pai, Flavio Bolsonaro (PSL) disparou no senado, passando Cesar Maia (DEM) na reta final, segundos as pesquisas. O peso de Jair Bolsonaro também impulsionou duas candidaturas ao governo do Estado: Wilson Witzel (PSC) e Indio da Costa (PSD). Eles passaram a disputar o segundo lugar com Romário (Podemos), que, por sua vez, entrou numa curva descendente. Desde o início da campanha, Witzel apoia Bolsonaro. Já Indio da Costa expressou sua adesão ao candidato a presidente pelo PSL nas últimas três semanas, demonstrando um certo oportunismo eleitoral. Seja como for, na Alerj, o peso Jair Bolsonaro deve ajudar a formar uma bancada do PSL e outra do partido do prefeito Marcelo Crivella, o PRB, que, recentemente, aderiu à campanha de Bolsonaro à Presidência da República. Ambas devem eleger, no máximo, cinco deputados. Será uma Alerj, em termos de partidos, pulverizada. Nela, existe uma dinâmica que eu chamo de partido da Alerj, na qual se percebe uma herança clientelista.

O senhor poderia explicar melhor essa herança clientelista?

Trata-se do que chamo de neochaguismo, e nomes como Jorge Picciani (MDB) e Sérgio Cabral (MDB) são atores que, desde os anos 1990, nele se fizeram presente. São práticas em que se utiliza o Estado para fazer nomeações e negócios e influenciar prefeituras, por intermédio de verbas orçamentárias.

E quais serão os impactos desse neochaguismo na Alerj no ano que vem?

Governador da Guanabara e do Rio de Janeiro [após a fusão], nos anos 1970 e 1980, Chagas Freitas dominou a política fluminense. O neochaguismo domina, com toda uma modernidade, a Alerj, a maioria dos prefeitos e o Tribunal de Constas do Estado. Um poder clientelista que se desdobra em corrupção. A Alerj tende a repetir as práticas que vêm sendo feitas desde 1995 até agora. E isso envolve ilícitos, corrupção e ações administrativas nebulosas, como, sobretudo, a proteção às milícias.

Como o senhor posiciona o PT neste contexto?

O PT apoiou os governos Sérgio Cabral e de Pezão, sendo que, neste, o petismo não estava formalmente no governo. Não creio que será oposição a um virtual governo de Eduardo Paes, por exemplo. Candidato a deputado federal, Quaquá, ex-prefeito de Maricá, é presidente do PT no Rio e foi visto fazendo campanha ao lado de Paes. O PT local, aliás, é muito próximo de Eduardo Paes. Adilson Pires, que foi vice-prefeito de Paes, é do PT. Jorge Bittar foi seu secretário de Habitação, e é do PT. Vislumbra-se, assim, que, no Rio, o PT terá uma prática fisiológica, à semelhança dos demais partidos da maioria.

E quanto à oposição à maioria, qual é sua previsão?

A oposição mais ruidosa e mais constante será feita pelo PSOL, obviamente, e pelo PRB, partido do prefeito Marcello Crivella, em função da proximidade das eleições municipais em 2020. Há casos pontuais, como a da deputada Martha Rocha (PDT), que votou contra a revogação da prisão de Jorge Picciani e dos deputados Paulo Melo (MDB) e Edson Albertassi (MDB) em 2017. Na Alerj, por maioria, votou-se pela revogação da prisão, o que não adiantou, já que a Justiça Federal determinou à época a prisão preventiva, a despeito da decisão tomada na Alerj. Martha Rocha e PSOL foram derrotados, mas se posicionaram de forma independente. Há que se destacar que o PSL de Bolsonaro também fará oposição a um eventual governo Eduardo Paes. Isso porque Flavio, o candidato ao Senado, foi muito duro com Cabral como deputado estadual e, no início de sua campanha, com o próprio Eduardo Paes. É claro que os dois podem, em algum momento, fazer uma composição.

O vereador Cesar Maia, antes rompido com Paes, é o candidato do ex-prefeito ao Senado...

Cesar Maia foi um deputado constituinte e criou uma linhagem na política a partir da Prefeitura do Rio, para onde trouxe novos nomes, inclusive o de Eduardo Paes. Ele foi candidato ao Senado em 2010 e não teve sucesso. Agora, está, segundo as pesquisas, em segundo lugar, sob ameaça de Lindbergh Farias, do PT. Pode se transformar numa liderança nacional, porque, à diferença de 2010, tem feito uma campanha além da capital, circulando com constância pela Baixada Fluminense.

Como o senhor vê a performance do PSOL?

O PSOL ficou fora da polarização, atrelando-se ao movimento Lula Livre. Isso afetou a candidatura de Guilherme Boulos à Presidência. Localmente, segundo as pesquisas, na luta pelo governo do Estado, Tarcísio Motta está atrás de Indio da Costa e do ex-juiz Wilson Witzel, que sequer tem história eleitoral.

E quanto à ausência de Garotinho no pleito?

Há um protagonismo do Judiciário, em função da militância litigante, que o aciona para tudo. E, assim, ele tem de se pronunciar. E, ao se pronunciar, torna-se protagonista, como no caso do Garotinho. Ele vinha crescendo nas intenções de voto, tirando votos de Romário, com quem já estava empatado. Com sua saída forçada por um ato judicial, a luta pela segunda vaga será, no mínimo, emocionante.



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