Jornal do Brasil

Rio - Eleições 2018

Soluções vagas e inconsistentes

Especialista em segurança pública reprova maioria das propostas dos candidatos para o tema

Jornal do Brasil SÔNIA APOLINÁRIO, sonia.apolinario@jb.com.br

Documentos, em sua maioria, com pouca consistência. Assim o professor João Trajano Sento-Sé, um dos coordenadores do Laboratório de Análise da Violência da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), avaliou as propostas para segurança pública de candidatos ao governo do Estado do Rio. A pedido do JORNAL DO BRASIL, ele analisou os programas tornados públicos nos sites dos sete candidatos cujos partidos têm representação no Congresso Nacional: Eduardo Paes (DEM), Indio da Costa (PSD), Marcia Tiburi (PT), Pedro Fernandes (PDT), Romário (Podemos), Tarcísio Motta (PSOL) e Wilson Witzel (PSC).

A ressalva “positiva” feita por Trajano foi o material de Tarcísio Motta. Segundo o professor, um dos mais “detalhados” e “consistentes”. Em “segundo lugar”, na sua avaliação, o de Eduardo Paes, “sumário, mas com algum foco”. “Analisando as propostas, a do Tarcísio (Motta) me achamou atenção de forma positiva por cobrir vários pontos, com maior cuidado no detalhamento e amplitude. Do outro lado, me chamou a atenção de forma negativa as propostas do Indio (da Costa), um texto sumário com uso de vocabulário chulo. Um festival de horrores. Quanto a Romário, as propostas parecem ter sido elaboradas em cima da perna”, afirma Trajano.

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Militares do Exército participam de operação das forças de segurança na comunidade do Preventório, em Niterói em maio passado: medida divide opiniões entre os candidatos (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)

Na sua opinião, as propostas do PSOL procuram cobrir vários pontos — do investimento na qualificação e valorização da carreira policial, passando pela desmilitarização da polícia, à lembrança e inclusão do conselho estadual de segurança pública na busca de novas formas de atuação, além de pregar uma parceria com o governo federal para o controle do acesso a armas de fogo.

Como ressalva, Sento-Sé cita a inclusão de ações para o Departamento Geral de Ações Sócio Educativas (Degase) dentre as propostas na área de segurança. Na sua opinião, por ser tratar de questões socioeducativas, deveriam constar dos planos para educação do candidato. Porém, observou que somente o documento do PSOL se “lembrou” do Degase.

Aumento de efetivo policial e redução do número de homicídios são itens que constam de todas as propostas. Trajano observou que a redução da violência nas ruas é o que Paes mais enfatiza. Na proposta do candidato do DEM, disse que ele apresenta uma “sigla nova”: COP, Centros de Operações Policiais, que promete criar, “em todas as regiões do Estado para integrar as atividades das forças de segurança e das polícias”. “Isso é desejável, mas é difícil integrar as ações das polícias, principalmente, porque não temos informação integrada, até agora. Seria ótimo se fosse feito. É algo que já foi prometido outras vezes”, afirma o professor.

De todas as propostas, a que menos agradou Sento-Sé foi a de Indio da Costa. O especialista destacou negativamente o trecho do texto que fala em “garantir segurança sem planos mirabolantes”, o uso reiterado da expressão “bandido” e a afirmação de que “polícia não é segurança nem babá de marmanjo”. “Essa linguagem chula não cabe em uma proposta de governo de um candidato que, ainda por cima, tem um jurista e delegado de polícia como vice [Zaqueu Teixeira]”, aponta Trajano.

Apesar de considerar as propostas “vagas”, o professor considera que várias são executáveis. O aumento do número de policiais, por exemplo, pode ser contemplado com a possibilidade de contratação de policiais já concursados. Em relação à reformulação de polícias, como prega Wilson Witzel (PSC), Trajano acredita que só terá condições de sair do papel se vier com “mudanças estruturais”, uma vez que a medida “deve sofrer resistência por parte das próprias instituições”.

O professor lembra, também, que o êxito dessas propostas, ao serem colocadas em prática, vai depender “da determinação do governador e das forças políticas que [o eleito] vier a mobilizar”. “A depender dessas propostas apresentadas, o que vejo é um futuro sombrio para o estado. A segurança pública teve menos destaque, nesta campanha, do que questões morais envolvendo os candidatos. O Rio de Janeiro vive sob a influência de três traumas: o financeiro, que restringe investimentos; o da própria política de segurança, com o abandono das UPPs, que vários programas de candidatos dizem que vão redefinir, um eufemismo para desativar; e o intervenção federal, feita de forma unilateral, que não melhorou a situação e nos fez acompanhar operações militares armadas. Tudo isso gerou na população ceticismo e baixa confiança nas autoridades. Acho as expectativas sombrias, mas vamos esperar para ver o que vem”, afirma Trajano.

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Paes

Sintetiza as propostas para segurança em 16 pontos para atuação. Diz o primeiro: “Reduzir a violência nas ruas, os roubos e homicídios de forma significativa no primeiro ano de governo por meio da implantação de um novo modelo de patrulhamento territorial e do aumento do efetivo policial destacado para operações de policiamento ostensivo conforme a mancha criminal”.

Romário

Apresenta 27 tópicos de forma sucinta. Dentre os primeiros estão:“Planejamento - Confecção de um Planejamento Estratégico Integrado para curto, médio e longo prazos, com realinhamento periódico (4, 8 e 24 anos). UPPs - Reduzir a concentração de policiais das UPPs, repensando o modelo de pacificação e aumentar o patrulhamento ostensivo, de forma a reduzir os crimes de rua”.

Índio da Costa

“Há tarefas de peso para se cumprir na segurança pública: Desarmar os bandidos; Retomar os territórios que eles dominam, inclusive os presídios; Prender os criminosos e mantê-los presos; Monitorar quem estiver solto, porque a Lei ainda é leve. Vamos garantir Segurança sem planos mirabolantes. Ouviremos as polícias. Daremos a elas todas as condições de trabalho para prevenir crimes”.

Tarcísio

Quatro tópicos formam o ponto de partida: “1. Encerrar a intervenção federal militar no Estado do Rio de Janeiro. 2. Abolir a política de ocupação e gestão militar de favelas e bairros populares. 3. Implementar um novo modelo de segurança pública com o foco na promoção da democracia, na garantia de direitos e na defesa das liberdades. 4. Integrar os diferentes órgãos de segurança.”

Witzel

“A proposta do Governo Wilson Witzel é assumir diretamente a responsabilidade da segurança pública, por meio da criação de um “Gabinete de Segurança Pública”, elevando à condição de secretarias autônomas a PMERJ e a PCERJ, que passarão a responder diretamente ao Governador do Estado dentro desta estrutura e que ficará vinculado diretamente ao Gabinete do Governador”.

Fernandes

O capítulo “Proteger com Inteligência” é baseado em seis ítens: 1: Integração e Coordenação da Segurança Pública; 2: Inteligência e Tecnologia no enfrentamento à Criminalidade; 3: Gestão Estratégica e Potencialização das Forças de Segurança; 4: Promoção da Justiça e Proteção ao Cidadão; 5: Reforço do Policiamento no Interior; 6: Fortalecimento da Gestão Penitenciária”.

Tiburi

“Nossa prioridade será a coordenação entre as polícias, privilegiando ações de inteligência e produzindo informações de qualidade para prevenção e repressão dos delitos nos municípios (...) Vamos valorizar a perícia e integrar sua atuação às polícias (...), investir em tecnologias, na central de dados e no sistema digital das delegacias legais. Realizaremos parcerias com as universidades”.



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