Jornal do Brasil

Rio - Eleições 2018

Retrato da prática política no Rio

Esvaziado por operação policial, debate com candidatos ao governo do Rio atrai poucos políticos e eleitores no Alemão

Jornal do Brasil SÔNIA APOLINÁRIO, sonia.apolinario@jb.com.br

Palco de operações policiais espetaculares — como a ocupação do Batalhão de Operações Policiais Especiais (PMERJ) e das Forças Armadas do Brasil, em novembro de 2010, que obrigou os traficantes a fugir pela mata — e de inaugurações de obras pomposas — como o teleférico, em julho de 2011, que transportou, entre outras autoridades, a ex-presidenta Dilma Rousseff, o ex-governador Sérgio Cabral e o ex-prefeito Eduardo Paes, e hoje se encontra desativado —, o Alemão se transformou, ontem, mais uma vez, no símbolo do desafio que é governar e fazer política no Rio de forma não excludente.

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Mesa vazia: apenas quatro dos oito candidatos que confirmaram presença apareceram, ontem, para o debate no Alemão: Dayse (PSTU), Fernandes (PDT), Trindade (Novo) e Motta (PSOL) (Foto: José Peres)

Organizado pela Agência de Notícias das Favelas (ANF), que esperava atrair à Vila Olímpica Carlos Castilho 600 pessoas, o “Encontro da favela com candidatos ao governo do Rio de Janeiro” reuniu apenas quatro dos oito políticos convidados que haviam confirmado presença e um público de pouco mais de 50 pessoas — assessores de candidatos incluídos.

Na madrugada de sexta-feira para sábado, o Comando Conjunto das Forças Armadas deflagrou uma megoperação nas favelas do Jacarezinho, da Maré e do Alemão, na Zona Norte do Rio. A consequência, no Alemão, foi um intenso tiroteio das 2h às 12h. Às 15h, começou o debate, realizado na quadra poliesportiva, com Marcelo Trindade (Novo), Pedro Fernandes (PDT), Dayse Oliveira (PSTU) e Tarcísio Motta (PSOL).

Na opinião de Karen Melo, editora da ANF, os moradores não foram para a Vila Olímpica por medo de sair para as ruas. Ela mesma teve dificuldade de sair da sua casa. Em relação aos candidatos, alguns optaram por participar de outros compromissos, outros confirmaram e não compareceram e houve, também, quem não respondesse ao convite enviado há um mês. “O Eduardo Paes nos respondeu dizendo que estaria em campanha fora do Rio na data. O Wilson Witzel nos perguntou se o local era seguro e não confirmou presença. O Garotinho nos respondeu na sexta-feira dizendo que estava com virose e não poderia comparecer. Romário não nos respondeu nem deu satisfação”, contou Karen. Inicialmente, segundo ela, também haviam confirmado presença Marcia Tiburi (PT), Índio da Costa (PSD), André Monteiro (PRTB) e Luiz Eugênio (PCO). Os que participaram responderam perguntas previamente enviadas por moradores sobre educação; saúde; infraestrutura; esporte e lazer; cultura; e segurança.

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Débora pretendia vender trufas (Foto: José Peres)

Débora de Souza, de 26 anos, ficou desapontada quando chegou à Vila Olímpica. Um pouco pelo fato de a sua candidata não estar presente ao debate, mas também porque chegou preparada para vender as trufas que produziu. Levou 60. “Esperava encontrar mais pessoas. A operação atrapalhou, com certeza”, afirmou ela, que disse que manteria seu voto em Marcia Tiburi, apesar da ausência da candidata petista.

Moradores comentaram que, enquanto o evento acontecia na Vila Olímpica, tiros eram trocados a cerca de 1,5km. Na opinião da monitora Maria Oliveira, de 23 anos, o que esvaziou o evento foi, mesmo, o descrédito das pessoas em relação aos políticos, e não a operação policial. “Toda eleição, ouvimos sempre as mesmas coisas, e nada acontece. Mas somos resistência. Eu ainda acredito que é possível fazer alguma coisa”, disse ela, que trabalha no Sesc de Ramos e ainda não decidiu em quem votará em outubro.

O estudante Felipe Félix, de 19 anos, vai votar pela primeira vez. Ele chegou à Vila Olímpica sem candidato definido. Saiu decidido que votará num dos quatro que participaram do debate: “É difícil se iludir, atualmente, com políticos. Mas, democraticamente, é isso o que temos: as eleições. Tem que estudar os candidatos antes de votar. Deve ter alguém que se importe com as pessoas, dentro da política”, comentou ele, que “deu um tempo” após o fim do intenso tiroteio da manhã para saber se teria condições de sair de casa para acompanhar o debate.

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Felipe votará pela primeira vez (Foto: Sônia Apolinário)

Os candidatos também passaram boa parte da manhã avaliando as condições de participação. “Buscamos informações. Quando disseram que não havia riscos, viemos. As pessoas estão aqui, vivem aqui, temos que vir aqui”, afirmou Tarcísio Motta, que chegou ao Alemão vindo de uma agenda em Macaé. “Confiei nos organizadores porque, entre trabalhadores, é preciso ter confiança”, disse Dayse. “Se quero ser governador e fico apreensivo de vir em uma comunidade, é melhor nem começar a campanha”, disse Marcelo Trindade, primeiro a chegar ao local. O segundo foi Pedro Fernandes: “Sou de Irajá, sou da região. Participar era uma grande oportunidade. O debate foi transmitido por vários coletivos”.



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