Bravos incógnitos na Ilha

Painéis do português Adelino da Rocha, que decoraram dezenas de botequins da cidade, resistem em lanchonete de bairro na Zona Norte

Houve uma época em que qualquer botequim que se prezasse no Rio ostentava um painel de Nilton Bravo. Foi assim que o português Adelino da Rocha adquiriu o seu uma das oito pinturas provisoriamente tombadas pelo município, em 2018 para decorar a parede do Bar Jobi, no Leblon. Também conhecido como o "Michelangelo dos Botequins", com mais de dois mil painéis pintados durante seus 68 anos de vida (1937-2005), as obras de Bravo continuam a pipocar pela cidade. A mais nova descoberta é a do professor de Literatura Evandro Von Sydow Domingues, carioca de 50 anos, que começou a pesquisar a vida do artista em 2011 e hoje disponibiliza um dos mais completos inventários da obra de Bravo, no avidanumagoa.blogspot.

Macaque in the trees
Um dos quatro painéis ainda desconhecidos, localizado em um botequim no Tauá, Ilha do Governador (Foto: Marcos Tristao)

Ao contrário do que pensam Adelino e sua neta, Eliana da Rocha, de 39 anos, que hoje toca o Jobi e promete jamais remover de lá o painel, já restaurado, os proprietários da Lanchonete Super Ilha, no Tauá, bairro da Ilha do Governador, decadente pé-sujo onde Rodrigues encontrou quatro painéis de Bravo até então desconhecidos, parecem não dimensionar o pequeno tesouro que abrigam.

As obras estão tão ensebadas quanto as paredes do botequim e cheias de rachaduras. Os quatro estão no alto de quatro paredes amarelas, e um está escondido por pilhas de latas de cerveja. Sobre a pintura chegou a ser fixada uma mini estante. Outro painel traz o número do telefone de Bravo, debaixo de sua assinatura 31-3338 , provável estratégia de marketing do artista para atrair novos pedidos.

O funcionário que trabalha ali, parente da atual locatária, se surpreende com o interesse do JORNAL DO BRASIL pelos painéis e indica o endereço onde vive a proprietária para maiores informações. Só que ela não estava em casa e ninguém por ali tinha seus contatos. Não fosse o jornaleiro Paulo Roberto Grivelli, 74 anos, há 54 com sua banca de revistas a poucos metros da lanchonete, a passagem de Bravo pelo bairro poderia passar em branco. "Eu o vi pintando os painéis. Era um homem branco, encorpado, de cabelo escasso e estatura mediana. Reservado, não era de muita conversa. Pintou os painéis ali mesmo, acredito que por encomenda do português Eugênio, um surdo, que alugou a casa por uns 30 anos", relata.

Macaque in the trees
O jornaleiro Paulo Roberto Grivelli é o único nos arredores capaz de recuperar um pouco da história dos painéis (Foto: Fotos de Marcos Tristao)

A família Pavão era proprietária daquele e de vários imóveis da Avenida Paranapuã, onde está a lanchonete, e pelo visto seu relacionamento com os locatários nunca foi dos melhores. Uma senhora vizinha à casa indicada como a dos atuais proprietários, não revela seu primeiro nome, diz que é a única Pavão sobrevivente e que não põe os pés na lanchonete, sem explicar a causa. Nega desentendimentos com os locatários e diz que os imóveis estão num inventário ainda não concluído. Ou seja, um imbróglio. O que dói mais é o unânime pouco caso de todos ali em relação às obras de Bravo.

A maior preocupação de Rodriguez em levantar a obra do artista é justamente evitar que esses painéis se percam, como ocorreu com os nove expostos no Bar Arco dos Telles, no Centro, espécie de "Museu Bravo", fechado há quase dez anos. "As pessoas não dão valor, talvez pelo estilo kitsch, meio naif e academicista das obras. É importante lembrar que sua maior importância está no ambiente dos botequins, especialmente numa época em que não havia televisão nesses ambientes e as pessoas não tinham com o quê se entreter", observa o professor, que também é poeta.

Talento hereditário

Na família Bravo, o talento vem de longe. Em 1885, Manoel Pinto Bravo, avô de Nilton, já se dedicava à pintura de painéis em restaurantes cariocas. A herança foi repassada para Lino Pinto Bravo, pai de Nilton, responsável pelo início da carreira do filho. Canhoto, Lino começava a pintura de um lado e, a partir de seus 13 anos, Nilton, que era destro, passou a dar continuidade à obra na direção oposta. Iniciavam o trabalho ao mesmo tempo e costumavam terminá-lo juntos. Um dia seu pai adoeceu, e ele, ainda bem jovem, assumiu seu lugar.

Uma das características marcantes de Nilton Bravo era a rapidez. Como a maioria dos bares tinha alguma pintura dele, o jornalista David Nasser costumava dizer que suas pinturas dariam para cobrir a Avenida Presidente Vargas. Se naquela época já houvesse grafiti, certamente as paredes da cidade seriam repletas de Bravos. Duas de suas pinturas foram tombadas pelo município, em 1986.

Nilton morou a vida inteira no Lins, na Zona Norte, com a mulher, a professora Marli Bravo, e a filha, a advogada Simone Bravo. Quando a demanda começou a escassear, nos anos 1970, ele passou a construir casas em seu bairro. Já na década seguinte o artista trocou os painéis por telas, expostas em galerias de arte da cidade. Chegou a ocupar a cadeira 40 da Academia Brasileira de Belas Artes. Outro caso que justifica a apreensão de Evandro Domingues ocorreu com o último painel pintado por Bravo, em 2004, um ano antes de sua morte, para a filial do Belmonte de Copacabana, que foi removido do local.

Segundo o proprietário, Antonio Rodrigues, foi ele mesmo quem adquiriu a pintura de Bravo, porém, o arquiteto que cuidou de uma reforma no bar preferiu trocá-lo por um espelho. "A pintura está guardada e será reaproveitada em outro local", promete.

 



Um dos quatro painéis ainda desconhecidos, localizado em um botequim no Tauá, Ilha do Governador
O jornaleiro Paulo Roberto Grivelli é o único nos arredores capaz de recuperar um pouco da história dos painéis