Rio

Violência no Rio faz fiéis evitarem ir a cultos e centros espíritas à noite

las podem divergir e até brigar entre si. Mas igrejas de vários credos se unem num ponto, diz a evangélica Roberta Sousa, 37: "O Rio tá foda".
Ela ri e logo pede desculpas pela linguagem que "não é de Deus". Mas a violência chegou a tal ponto que tanto Roberta, fiel de uma igreja batista, quanto sua irmã Márcia, 40, espírita, desistiram de frequentar encontros de suas religiões após anoitecer.
Para Roberta, o alerta soou quando leu nos jornais sobre um assalto a uma igreja no bairro delas, Méier (zona norte), no último dia 4. Homens armados invadiram o culto da Adventista do 7º Dia e fizeram a limpa em dezenas de fiéis, levando inclusive dinheiro separado para o dízimo.
Já Márcia ficou encucada quando renderam o funcionário de uma lanchonete próxima ao centro espírita onde trabalha como médium. "Naquele dia eu até senti um aperto e não fui tomar o cafezinho que sempre tomo lá. Quando soube o que fizeram com o Tião, saquei que não foi só só pressentimento, foi proteção espiritual mesmo."
Mas essa é precisamente a ironia, dizem à reportagem líderes e adeptos de crenças diversas. Proteção é o que eles buscam nos templos de suas respectivas religiões, mas é justamente por se sentirem desprotegidos num estado onde 6.714 pessoas foram assassinadas no ano passado que eles têm pensado duas vezes antes de sair de casa para professar sua fé.
O levantamento do Instituto de Segurança Pública indica apenas o que é enquadrado como "letalidade violenta" (homicídio doloso, latrocínio, lesão corporal seguida de morte e morte por intervenção de agente do Estado).
Há ainda que se considerar os assaltos, como o sofrido por um padre e fiéis um ano atrás, numa igreja católica da Vila Kennedy, comunidade na zona oeste carioca.
O grupo participava de um mutirão de confissão da Páscoa quando um homem encapuzado entrou na paróquia Cristo Operário e Santo Cura D'Ars e apontou um revólver para a cabeça de todos.
O próprio arcebispo do Rio, dom Orani Tempesta sofreu em menos de um ano, entre 2014 e 2015, dois assaltos. Na primeira vez, roubaram anel, cordão e crucifixo. Na segunda, o carro em que estava.
Em 2016, novo susto: um tiroteio entre policiais e bandidos irrompeu em Santa Teresa, onde dom Orani estava preso num engarrafamento.
Templos têm se adaptado como podem. O babalorixá Márcio de Barú lidera sessões de candomblé em seu terreiro na Penha, bairro próximo do Complexo do Alemão. Ultimamente os atabaques, têm silenciado mais cedo.
Dirigente da umbandista Casa do Irmão Francisco, Josefina Maria Albino detectou uma queda de, em média, 50% na frequência das sessões semanais, durante a noite.
"Algumas igrejas estão readequando seus horários por causa do ir e vir. Não é só o fato de o templo estar em lugar de risco. É a disposição das pessoas de estarem em trânsito domingo à noite, algo recorrente antes", diz o pastor batista e cientista político Valdemar Figueredo Filho.
Líder da Primeira Igreja Batista, na favela do Juramento, Dercinei Figueiredo decidiu: escureceu, já era. Desde março não realizam mais cultos dominicais à noite.
Eles já tiveram de lidar com homens armados que invadiram o templo em busca de um ladrão que se escondera lá, sem que os integrantes da igreja soubessem.
Bíblias online, cultos televisionados e ciclos de leitura espírita feitos por conferência virtual ganharam espaço no dia a dia das irmãs Márcia e Roberta, que já perderam um primo num latrocínio. Ele, como Márcia, era espírita, uma doutrina que crê na reencarnação.
"Até brinco: tomara que, na próxima vida, ele more, sei lá, na Dinamarca, um desses lugares onde tem um assalto por ano, se muito."

Anna Virgínia Balloussier