Rio

Primavera Feminina lota o Centro

Na marcha do Dia Internacional da Mulher, elas vão às ruas exigir mais direitos, igualdade e protestar contra o feminicídio

No Dia Internacional da Mulher, quem estava no Centro, mais do que a celebração, viu uma manifestação carregada de indignação e gritos de protesto. Não era para menos. A cidade viveu casos assustadores de feminicídio, como o assassinato de Marcele Rodrigues da Silva, assassinada a facadas na frente do filho pelo ex-companheiro. Apesar de estar bem lotada, tomando ruas e calçadas, quem olhava de perto via ali os diversos segmentos da sociedade brasileira, como índios, negras, LBBTQ, com as mães à frente.

Na rua da Alfândega, separadas dos outros movimentos, as mulheres negras falavam sobre pautas e problemas que as afligem. Segundo dados do Atlas da Violência, o homicídio de negras foi 71% maior que o de mulheres de outras etnias. Revezando o microfone, as participantes reclamavam da violência pessoal e exigiam justiça para Marielle Franco, vereadora cuja morte vai completar um ano na próxima semana.

Após o início da concentração na Rio Branco, o movimento de mulheres negras abriu espaço entre as manifestantes e seguiu com elas rumo à Cinelândia, com o coro de "abre alas que as pretas vão passar", e outras músicas que exaltam a cultura negra. Destacadas da enorme concentração que da Candelária, uma das organizadoras do movimento negro, Leni Souza, de 66 anos, fez questão de enfatizar que era só uma marcha: "Aqui é marcha de todas as mulheres. Estamos unidas contra a violência de gênero, que aflige a todas, independente da cor da pele".

Presente na manifestação, a deputada do PSOL Talíria Petrone viu na marcha uma forma delas se expressarem politicamente e demandarem atenção do poder público: 'Você tem as mulheres negras com filhos baleados na comunidade, um governo querendo trazer retrocessos para o direito das mulheres, esse é o momento para a mobilização popular com uma maioria de mulheres". Leni também afirma: "Não vai ficar só nesse ato, vamos continuar indo às ruas sempre que sentirmos nossas vidas ameaçadas".

De longe, parada na calçada com seu filho de 1 ano e meio, a vendedora Letícia Martins, de 17 anos, observava a manifestação mas não entrava no ritmo dos cantos. Mas mesmo de longe, apoiava as pautas: "Eu acho benéfica essa manifestação, acredito que ela me representa e pode melhorar a vida de muita gente", disse, enquanto acalmava o filho por causa do barulho das baterias. "Se eu não estivesse trabalhando, com certeza estaria marchando junto com elas", completou Letícia. Uma manifestante, Vitória Gama, disse que "era um dos melhores dias da vida dela", e parafraseando Simone de Beauvoir arrematou: "Hoje eu percebi que não sou mulher, estou me tornando uma com o passar dos dias, com muita luta e resistência".

A manifestação era agitada, tinha bateria, pandeiro, caixas de som e trio elétrico. Mesmo sendo uma multidão, havia grupos para representar todas as mulheres do Brasil. A ala das mães com crianças de colo vinha na frente, com sua luta por melhores condições de vida para seus filhos e pelo direito ao aborto. No meio seguiam as mulheres indígenas, que veem ameaçados seus direitos de criar suas crianças na sua própria cultura. As negras pediam o fim do racismo e da sexualização de seus corpos. As dos movimentos organizados de trabalhadoras buscavam mais dignidade no ambiente de trabalho, a igualdade de salário e o fim do assédio. As LGBTQ exigiam o reconhecimento do poder de construir uma família, de não serem humilhadas por serem quem são e terem o direito de amar quem elas querem.

No final da marcha, e não menos importante, um grupo pedia maior participação na política, que as mulheres possam decidir sobre o seu destino. Apesar da diferença de pautas e de realidade entre as participantes, o grito que ecoou no trajeto da Candelária até a Cinelândia foi um único pedido: "Parem de nos matar!"

*Com Supervisão de Celina Côrtes