Rio

Invisíveis às lentes

Concurso de fotografias é idealizado por vereador do PT para lembrar o primeiro ano da lei de política municipal para os moradores de rua

Elegantemente sentado à beira de uma calçada, um senhor assiste ao desfile de Sete de Setembro. Com o corpo estirado na areia da Praia do Leblon, o homem apenas dorme. Deitado sob um lençol com os pés de chinelos trocados, as pernas sujas evidenciam a falta de higiene. Cenas que, muitas vezes, são invisíveis aos olhos, foram flagradas no cotidiano da população em situação de rua e farão parte de um concurso de fotografias "Cidadania em Situação de Rua", organizado pelo vereador Reimont Santa Bárbara (PT), presidente da Comissão Especial para a População em Situação de Rua.Para fotógrafos profissionais e amadores, a competição lembra o aniversário da Lei 6350/2018, batizada de Maria Lucia Pereira, que viveu 16 anos nas ruas da Bahia e criou a política municipal para o morador de rua no Rio.

"Queremos dar luz sobre o problema da população em situação de rua no Rio, além de forçar a visibilidade dessas pessoas. É uma denúncia de que a prefeitura não cumpre a LEI 6.350, de maio de 2018, que instituiu a Política Municipal para a População em Situação de Rua e o Comitê Intersetorial de Acompanhamento e Monitoramento da Política Nacional para a População em Situação de Rua", explicou Reimont.

Segundo o vereador, a Lei 6.350 prevê a criação de políticas públicas voltadas às pessoas que enfrentam esse tipo de vulnerabilidade social e econômica. No entanto, Reimont conta que a prefeitura não atende as mulheres e nem as crianças em situação de rua. "Além disso, apesar da criação da lei que implanta o Comitê Intersetorial, após a sanção, Crivella publicou um decreto em que a participação da sociedade civil se tornou pífia", completa.

"Logo após o Carnaval, vamos procurar o Ministério Público para propor uma ação civil pública contra a prefeitura. O poder público precisa ser acionado judicialmente para resolver essa questão. No Rio, são cerca de 16 mil pessoas em situação de rua, cinco mil delas apenas no Centro da cidade", contabilizou Reimont.

O fotógrafo Juranir Badaró participa do concurso com a foto do senhor sentado na Avenida Presidente Vargas assistindo ao desfile do Sete de Setembro do ano passado. A elegância do senhor sentado na calçada o chamou sua atenção, com óculos vermelhos na cabeça, ele segurava a boneca de uma sereia. "Ele estava com a roupa toda suja, mas sentado em sacolas plásticas que forrou no chão e assistindo o desfile. Não tive como chegar perto dele porque fui retirado do local pelo Exército e levado para outro setor", lembrou Badaró.

O flagrante do homem dormindo em Copacabana, com os chinelos trocados, é do fotógrafo Américo Vermelho: "Foi complicada de se fazer, requer cuidado para não cair no piegas. A população em situação de rua sempre fez parte da nossa paisagem, mas, como morador da Praça São Salvador (Laranjeiras), acredito que durante o governo do ex-presidente Lula havia diminuído, agora voltou a crescer", avaliou Vermelho.

Em dezembro de 2018, a fotógrafa Maria Eduarda José fotografou um homem que dormia sob as latinhas na Praia do Leblon. Maria Eduarda lembra que ele parecia invisível aos olhares dos estranhos que caminhavam pelo local. "A função da fotografia é denunciar, escancarar aquilo que as pessoas fecham os olhos. Essa população sofre com a ausência de políticas públicas", lamentou Maria Eduarda.

Um júri de seis pessoas, entre especialistas em fotografia social e representantes de movimentos sociais, irá selecionar as 12 melhores fotos, que farão parte de uma exposição que vai ocupar o saguão da Câmara Municipal e podem virar um livro sobre o tema, que será lançado pelo mandato do vereador. Para concorrer, é preciso postar no feed do Instagram com as hastags: #tonarua, #soucidadao e #lei6350VereadorReimont. As inscrições vão estar abertas até 31 de março. Detalhes sobre o concurso pelo site http://reimont.com.br/ .

De acordo com a Secretaria municipal de Assistência Social e Direitos Humanos, o decreto que instituiu o Comitê Intersetorial requer a participação de várias pastas do Executivo, cuja reunião foi adiada para este mês. Participam também deste comitê, a Defensoria Pública Estadual e o Movimento Nacional pelos Direitos da População em Situação de Rua.