Rio

Prédio no Centro, que acaba de passar por primoroso retrofit e ocupa um quarteirão inteiro da Avenida Beira Mar, está à venda

Era o ano de 1967. Mário Santiago, então com 19 anos, aguardava ansioso sob o 'Púlpito de Giovanina' - a sacada de onde a funcionária responsável anunciava os nomes dos que haviam passado no cobiçado concurso para o Banco Nacional da Habitação (BNH). Ele estava entre os aprovados. Hoje, aos 71, barba e cabelos brancos, Santiago ostenta outro tipo de orgulho: como presidente do Fundo de Previdência dos ex-funcionários do BNH (Prehab, um fundo de pensão com autogestão), oferece à cidade o Edifício Novo Mundo, de 14 pavimentos e 12 mil m², totalmente recuperado, após anos de abandono, por um cuidadoso retrofit que devolveu ao imóvel seu glamour e o inseriu no circuito art déco do Rio. Localizado no quarteirão entre as avenidas Presidente Wilson, Calógeras, Beira Mar e Rua General Molina, no Centro, o privilegiado endereço, que sediou ainda o Ministério do Interior, está à venda, após a reforma de três anos que consumiu R$ 52 milhões.

"Junto ao Edifício Standard (sede do Ibmec), o Novo Mundo forma o 'Pórtico Art Déco' de imensa qualidade arquitetural para a região do Castelo, anunciando as dezenas de construções da região surgidas após o desmonte do Morro do Castelo", explica Márcio Roiter, fundador e presidente do Instituto Art Déco Brasil. "A serralheria artística e o hall em pé direito alto (onde está o púlpito), formado de ônix e luminárias de tirar o fôlego, desenhadas sob encomenda, representam os pontos altos do prédio. Será que esse novo ícone art déco sugere uma nova era para os prédios no estilo, seja no Castelo ou no resto da cidade?", questiona Roiter, referindo-se à infinidade de imóveis art déco espalhados pelo Rio, das décadas de 1930 a 1950, totalmente abandonados. "Trata-se de um exemplo a ser seguido", provoca.

As linhas geométricas da fachada, em tom creme, se destacam na paisagem da Beira Mar, em frente ao Museu de Arte Moderna (MAM), com sua coroa escalonada tal qual um bolo de noiva, em que a largura do prédio é progressivamente reduzida até o topo. O que mais impressiona, porém, como diz Roiter, é o imponente hall - tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico Nacional (Iphan), assim como a fachada do edifício projetado pelo arquiteto alemão Rodrigo Wriedt, inaugurado em 1934. O piso alterna diferentes tonalidades e formatos de mármore de Carrara, dos losangos aos retângulos, do branco ao rosa, passando pelo verde claro. O desenho geométrico das arandelas poliédricas - luminárias presas às paredes - e dos lustres também impactam, assim como os monumentais portões de serralharia francesa, cujas peças foram recuperadas, uma a uma. A decisão do retrofit foi tomada pela Prevhab em 2011, precedida pelo trabalho de planejamento de 20 especialistas, do restauro às comunicações, e pelo reforço estrutural.

Quando o BNH mudou-se para lá, contava com oito mil funcionários, cujos remanescentes não passam de 600 e estão instalados em outro endereço, na Glória, Zona Sul. Os pavimentos, com 740 m² por andar, no passado divididos em sete salas de aluguel - , o prédio disponibilizava cerca de 50 salas para alugar, majoritariamente ocupadas por escritórios de advogados -, passaram a formar dois grandes salões, com as mais modernas instalações. "O prédio tem certificado Greenbuild Art Déco Platinum, o que, além da excelência da restauração, significa que dispõe de desde o reuso de água às fibras óticas necessárias às instalações de última geração", explica Gustavo Berriel, diretor de Administração e Previdência da Prevhab.

Diz a lenda que quem mandou construir não apenas o edifício, como o hotel de mesmo nome, Novo Mundo, na Praia do Flamengo, foi o espanhol Victor Fernandes Alonso, cuja atividade era a de ressegurar os bicheiros. Ele teria morado no 12º piso, circundado por uma varanda debruçada sobre a vista estupenda da Baía de Guanabara e do Pão de Açúcar na parte dianteira. Agora, a maior dificuldade de quem ocupar o espaço será se concentrar no trabalho, diante de tanta beleza.