Rio

O novo canto do exílio

Escritor que denunciou PM do Caso Amarildo e deixou o Brasil por ameaças de morte relata ao JB suas impressões sobre novos tempos

Arquivo pessoal
Credit...Arquivo pessoal

Já escrevi uns três textos, e descartei. No momento em que escrevo este, já meio que desistindo de tentar, estou olhando pra minha conta bancária. Não é animador, e, dessa vez, parece me bater um tipo de desespero que só tive quando me cortaram a luz, no tempo em que morei no bairro da Piedade, no subúrbio do Rio.

Já tinham cortado minha luz outras vezes, antes. A diferença é que, na Vila Aliança, favela vizinha a Vila Kennedy, onde morei alguns anos e tive luz cortada algumas vezes, era só chamar um eletricista que tinha a manha do gato, e ele religava pra mim. Ou puxava um fio do poste mesmo.

Em Piedade, bairro onde fui morar logo depois que saí da Vila Aliança, já não tinha mais essa possibilidade. Os caras da Light vinham com o caminhão, cortavam, lacravam, iam embora sem nem dar boa noite isso na sexta-feira, ou seja, ia passar o final de semana sem ventilador, geladeira, "RJ TV". O sistema tem uma peculiar crueldade. O sistema é mau.

Escrever esse texto, anos depois, é como voltar para o mesmo ponto, o momento em que a Light cortava a minha luz. Só que agora eu estou num bairro chamado Ramada, uma região fora do distrito de Lisboa. Eu brinco dizendo que Ramada é a Nova Iguaçu daqui.

Tudo fica longe. Todo mundo aqui é quieto, fala pouco. Eu não conheço os vizinhos, ninguém senta na calçada. Num frio de 10 graus, não tem criança na rua empinando pipa. Tem nem sol direito. Aqui, duas da tarde se parece com 9 da manhã de um inverno em São Paulo. Aquele sol que sai, mas devagar. Diferente do sol que nasce em Cascadura, que já chega cantando Alcione. Meus dias, há dois meses e meio, tem sido explicar como vim parar aqui.

Apesar de escrever nas redes sociais e alcançar milhões de pessoas por mês, tem gente que não faz ideia que eu, escritor e educador popular, vindo da periferia e dos subúrbios do Rio, tô fazendo em Ramada, a Nova Iguaçu lusitana, olhando o saldo no banco dar o último suspiro, sem família, sem redes de amigos, sem abraço, logo eu, que estava no Brasil há pouco tempo, trabalhando com gente que considero muito importante. Gente que me abriu oportunidades. Lázaro Ramos, com quem trabalhei, inclusive em reuniões em sua casa, escrevendo roteiros. Marina Silva, que tive o prazer de acompanhar e trabalhar como consultor político para assuntos relacionados a periferia na última campanha presidencial. Minha esposa tinha conseguido abrir uma cozinha. Era chef, tinha planos de futuro. Eu chegava em casa, no bairro do Cachambi, cumprimentando dona Cida, que nos alugou o imóvel onde moramos por felizes cinco anos. Lá, dei aula pros meus alunos da Universidade da Correria. Lá, dei entrevista pra imprensa de muitos países, falando do Rio, da violência, de empreendedorismo, de crônicas que eu escrevia. Minhas cachorrinhas, Madureira e Tijuca, ainda estão no Rio. Deixamos tudo, viemos com cinco malas.

Eu sou um expatriado. Me tornei exilado, em 6 de dezembro de 2018. Após dois meses de planejamento e conversas com pessoas, que incluíram a Embaixada de Portugal e o Consulado em São Paulo, com a ajuda da própria Marina, organizei minha saída, em sigilo, do país, para Lisboa.

Durante dois meses, troquei números, telefones, usei softwares de rastreamento, deixei de sair de casa em vários horários e dias, vendi coisas que comprei com muito sacrifício, fiz os últimos exames médicos, pois me trato do diabetes tipo 2 desde janeiro de 2018, respirei fundo, me desfiz de tudo, me despedi de Cavalcante, bairro da minha infância, morei 15 dias em São Paulo no mais absoluto sigilo e sem localização definida, peguei o primeiro avião, desci em Paris, com medo, fui recebido em Lisboa, por uma família de portugueses militantes, e aqui fiquei.

Só tornei pública a minha saída depois que vim pra Portugal, e entendi que o ambiente já estava seguro. Assisti à posse de Bolsonaro da TV de um bar, em Lisboa. Muitos portugueses não entendiam como ele se tornara presidente. Nem eu. Nem você.

Quando Jean Wyllys anunciou a saída, eu estava numa reunião. A notícia chegou pelo celular. Meu telefone não parou de tocar por quase duas horas. A sensação tem sido dupla: de terror, a cada dia, diante da espiral de tragédias que não tem fim, e de desterro. Aqui, eu não tenho um RG. Um cartão-cidadão, como chamam. Portugal não vai conceder asilo político a brasileiros. O presidente, Marcelo Costa, chamou Bolsonaro de "irmão". Aqui, a direita cresce, e tem Bolsonaro como referência. É Hitler no céu, Bolsonaro na terra. De vez em quando eu supero o medo de ir na rua trabalhar nas aulas que comecei a dar aqui, e vejo uns cartazes gigantes onde está escrito "Europa para os europeus". O sangue gela.

Quero voltar, mas não tenho mais para onde voltar. Preciso aceitar essa realidade, e você talvez não saiba mas, no ano de 2012, eu já escrevia nas redes sociais, e usei minha voz, ainda pequena e pouco conhecida, para denunciar o major Edson, preso e condenado por torturar e matar Amarildo. Eu visitei a esposa de Amarildo, na Rocinha, com o pastor Antonio Carlos, da ONG Rio de Paz, num domingo a tarde. Desde então, recebi ameaças de policiais e milicianos que, em 2015, invadiram minha casa no Cachambi. Fiz o primeiro B.O.. A jornalista Roberta Trindade teve uma grande participação nisso. Ela publicou, nas suas redes, que "quem defende bandido, é bandido também", se referindo a mim. Como boa parte de seus leitores pertencem a essa instituição imaculada chamada Polícia Militar do Rio de Janeiro, as ameaças foram diretas. Mas o caos estava instalado no país, não era um privilégio meu, queridos.

Em 2017, me tornei alvo da quadrilha que há anos ameaçava diariamente a ativista, escritora e feminista Lola Aronovich. Ao defender uma estudante vítima de racismo na UniCarioca, o grupo, liderado por Marcelo Mello, preso em maio de 2018, me ameaçou por meses, chegando a oferecer 45 mil reais pela minha morte na FLIP de 2017. A TV Globo comprou a briga e realizou o debate onde eu deveria estar, mas por videoconferência. Numa sala, no Leblon, Rafael Dragaud e Carlos Alberto Ferreira, ambos da emissora, e meus amigos, acompanharam o debate e a minha fala, que contou com a presença de Edney Silvestre, em Paraty. Edney, jornalista que aprendi a amar, fez comigo uma das mais incríveis entrevistas que dei na vida, uma tarde de afeto e aprendizado na Praia do Leblon, bairro que tanto critiquei no meu livro, "Rio em Shamas", indicado a um Jabuti em 2017.

As ameaças ganharam contornos mais graves, e registrei na Delegacia de Crimes Virtuais do Rio, na Cidade da Polícia. Os criminosos invadiram meu e-mail, descobriram meus contatos, ameaçaram a todos, inclusive outros jornalistas. Até a delegada que cuidava do caso foi ameaçada e exposta por eles. Enquanto isso, o Brasil seguia em queda livre para o resultado mais assustador das urnas, depois da volta da democracia.

No dia 28 de outubro, com a vitória dos milicianos na Zona Norte do Rio, porque é isso que Bolsonaro e Witzel representam, eu decidi com a minha esposa que nosso tempo no Brasil tinha acabado. Perdemos a favela. Perdemos o povo. A favela votou em Bolsonaro. A esquerda abandonou a favela. Tudo está perdido. Por todos os lados.

Faz meses. Parece que foi ontem. Escrevo esse texto, minha última tentativa de me fazer entender, dessa vez aos leitores do JORNAL DO BRASIL. Ao ouvir muitos depoimentos de amigos e colegas de trabalho de Ricardo Boechat, o JB surge, citado como um dos grandes lugares onde ele brilhou no mundo. Na minha agenda pessoal, todo dia tinha um lembrete, pra ouvir Boechat pela manhã. Na segunda-feira, tomei café sozinho. Reproduzi, na minha página, a voz de Boechat me dando bom dia. Mas dessa vez era eu, falando pra mim mesmo, percebendo agora quanto espaço ele ocupava dentro da minha alma. Era o último resquício de normalidade que eu ainda tinha. Todas as manhãs, desde 2010, eu ouvia Boechat.

Falei com o Miguel Paiva. Perguntei se aceitavam publicar um relato no jornal, para o qual já havia sido chamado para escrever e colaborar. Veja bem: como escritor, vindo da periferia, ser chamado para escrever no JB é um Jabuti por dia. Nada contra o Jornal dos Securitários da Grande Araçatuba. Mas o JB é o JB. Boechat passou aqui. Explicar isso é uma forma de dizer a ele: "Estou tocando o barco, Boechat". Já conto como um dos três exilados em razão de ameaças e por medo de viver no governo de Bolsonaro. Saiu, antes de mim, a professora Débora Diniz depois de mim, o deputado federal Jean Wyllys. Outros virão. Organizei um grupo para receber brasileiros. Já nos preparamos para trazer um.

Deixo aqui um abraço a todos vocês que estão chocados, diariamente, com o momento que vivemos. Das mortes e a suspeita de mutilação e execução pelo Bope de 13 pessoas no Fallet, a festa da diretora da Vogue: o Brasil perdeu o controle. Mas, como brasileiro, agora fora da minha terra, não podendo voltar e inseguro quanto ao que na prática vou fazer aqui,digo: precisamos superar as dores, vencer o ódio, nos abraçar nas ruas, usar o Carnaval para resistir, cantar nosso destino, nosso destino como povo, nosso destino traçado, no samba, no sol da Presidente Vargas, nos blocos, nos trios, no frevo, nós somos maiores que isso tudo que está aí, não somos uma geração perversa e corrompida, não fizemos nada para merecer isso, fomos sequestrados pelos que só enxergam ódio e sandices, nosso destino, meu irmão, é ser o povo brasileiro. E não há nada mais maravilhoso do que ser brasileiro. Seja na praia, seja distante, no frio, num bairro no meio do nada, em Lisboa, sozinho.

Desejo que todos nós possamos retomar nossa utopia de volta. Nós somos mais que isso. Tenho saudade de vocês todos. Do meu chão. Viva Boechat. Viva aos que continuam com esperança. Viva o povo brasileiro.

* Anderson França, exilado, desde 6 de dezembro de 2018.



Anderson França
Acima, a ilustração de Miguel Paiva inspirada no exílio de Anderson França (abaixo) em Lisboa