Rio

Declaração de diretor da Delegacia de Homicídios sobre ação da PM no Fallet causa estranheza em defensores dos Direitos Humanos

A declaração do diretor da Delegacia de Homicídios, Antônio Ricardo que investiga a ação da Polícia Militar na Favela do Fallet na sexta-feira passada ao jornal "O Globo", de que numa perícia preliminar da Polícia Civil mostrou que não há conflito entre o que foi dito pelos policiais militares e o que foi encontrado nas cenas do crime causou estranheza às autoridades ligadas aos Direitos Humanos. A ação do Batalhão de Choque e do Batalhão de Operações Especiais, tropas de elite da Polícia Militar resultou em 15 mortes na comunidade no Rio Comprido. Na versão da PM, os jovens reagiram à voz de prisão e atiraram contra os militares. Na tarde de ontem, familiares dos rapazes que morreram durante a operação policial participaram de uma reunião com representantes do Ministério Público, Defensoria Pública, OAB-RJ e deputados estaduais. Eles dizem que houve execução e torturas.

A deputada estadual Renata Souza (PSOL), que poderá assumir a Comissão de Direitos Humanos da Alerj, considerou a declaração do diretor da DH prematura: "Esse resultado da perícia preliminar é no mínimo prematuro. É preciso se aprofundar mais nos laudos cadavéricos. Temos, inclusive, denúncias de que os corpos foram retirados do local antes da perícia. É preciso mais investigação para se dar uma resposta concreta", avaliou a deputada.

Também presente ao encontro, o deputado estadual Waldeck Carneiro (PT) afirmou que "chama atenção o conjunto de controvérsias sobre as circunstâncias em que essa operação se desenrolou": "Há por parte de famílias de algumas das vítimas afirmações de que teriam sido fuziladas. Havia vítimas com o pescoço quebrado, esfaqueadas...".

Macaque in the trees
Pedro Ztrozemberg (Foto: DPRJ/ThaThiana Gurgel)

Segundo Pedro Strozenberg, ouvidor-geral da Defensoria Pública do Rio, os fatos ainda estão em fase de apuração: "Nesse caso, já foi dita muita coisa que precisou ser revista. Então não vale a pena repetirmos essa mesma atitude com conclusões antecipadas aos processos investigatórios. Isso vale para Divisão de Homicídios, Ministério Público e para Comissão interna da PM. Esperamos, de alguma maneira, que esses órgãos possam ter posições conclusivas para ver de que maneira possam dar resposta.", disse o defensor.

No início da semana, uma equipe da Defensoria Pública esteve na Favela do Fallet para ouvir moradores e parentes dos rapazes mortos. Ainda conforme Strozenberg, os familiares reconhecem o envolvimento dos mortos com o crime. No entanto, estão indignados com o resultado da operação. Os moradores acreditam que a ação poderia ter ocorrido com um grau muito menor de letalidade.

Na quarta-feira, o governador Wilson Witzel (PSC) utilizou as redes sociais para dizer, ao lado do Coronel Figueredo, secretário estadual de Polícia Militar do Rio, que a ação da PM foi legítima. O governador se antecipou mesmo à investigação da Polícia Civil para dizer que confia na versão apresentada pelos policiais militares. Ele também voltou a falar em "rigor" para combater o crime organizado: "Quero reafirmar aqui a minha confiança na Polícia Militar (...). O que aconteceu no Fallet-Fogueteiro foi uma ação legítima da Polícia Militar. Agiu para defender o cidadão de bem. Não vamos mais admitir qualquer bandido usando armas de fogo, de grosso calibre, fuzis, pistolas, granadas, atentando contra a nossa sociedade. Vamos continuar agindo com rigor", disse o governador no vídeo.

De acordo com a PM, após uma informação recebida pelo Disque-Denúncia, de que vários criminosos estavam escondidos em uma casa na Rua Eliseu Visconti, no Morro do Fallet, policiais do Batalhão de Choque cercaram a residência e invadiram o local. Segundo nota da PM, no confronto, 13 bandidos ficaram feridos e foram levados para o Hospital Municipal Souza Aguiar, na Região Central da cidade. Com dois corpos encontrados no domingo, subiu para 15 o número de mortos.

Política do abate

O teólogo José Ricardo Bandeira, especialista em gestão da Segurança Pública pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), acredita que as mortes no Fallet "representam o possível início do aumento nos índices de letalidade e mortes em confronto decorrente de operações policiais na cidade, como já era apregoado pelo então candidato e hoje governador do Estado do Rio se Janeiro em seus discursos, que, entre outras medidas, defende a lei do abate de criminosos. "Se seguida à risca, ações como essa podem se tornar uma prática corriqueira, levando o estado a um grande retrocesso no combate à violência e à criminalidade", alerta Bandeira.