Rio

Reboco de igreja em risco de cair

Nossa Senhora do Monte do Carmo, ao lado da antiga Sé, também exibe rachadura e inspira cuidados

Uma das mais antigas igrejas do Rio de Janeiro, a Nossa Senhora do Monte do Carmo, na Rua Primeiro de Março, no Centro, exibe rebocos prestes a despencar em sua fachada lateral, no Becco dos Barbeiros. Deste mesmo ângulo, é possível observar uma extensa rachadura, que parece aumentar o risco de quem passa por ali. Erguida entre 1775 e 1770, a partir de projeto do mestre Manuel Alves Setúbal, a igreja, tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em setembro de 2012, integra um dos mais importantes conjuntos históricos da cidade, formado pela Igreja Nossa Senhora do Carmo da Antiga Sé – palco da coroação de D. Pedro I e D. Pedro II e dos casamentos de ambos – e o Paço Imperial, antiga sede do governo imperial.

A denúncia foi compartilhada no grupo S.O.S Patrimônio pelo olhar atento de Paulo Clarindo, presidente do Instituto Amigos do Patrimônio Cultural (IAPAC). Já Paulo Siqueira, gerente do Bar e Restaurante Coma Bem, contudo, diz que nunca viu nenhum desabamento no Becco dos Barbeiros - estreita passagem entre as ruas Primeiro de Março e do Carmo, construída no século XVIII, local preferido para a moradia dos melhores barbeiros da cidade na época, que também arrancavam dentes sem anestesia e faziam tratamentos médicos. Diz a lenda que eles guardavam sanguessugas famintas em potes nas suas barbearias para extrair sangue dos pacientes -, onde se instalou há nove anos.

“Mas realmente dá medo. Está maltratada, tadinha da igreja”, lamentou Siqueira. Há vestígios de obra inacabada tanto nesta mesma face do prédio quanto do outro lado, no beco entre as duas igrejas, onde há uma estrutura erguida para reforma, atualmente abandonada.

Arlindo Diniz, secretário da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Monte do Carmo – instituição criada em 1648, que lançou a pedra fundamental da igreja em 1755 com a presença do governador Gomes Freire para a iniciação de seus noviços leigos -, disse que a ordem está sediada na Rua do Riachuelo e que desconhece este tipo de ameaça. Prometeu, porém, enviar uma equipe ao local para verificar os possíveis riscos.

“Somos uma ordem filantrópica, sem fins lucrativos, e entramos com um processo pela Lei Rouanet para captar recursos para reformar a igreja, até agora sem retorno”, observou. Quanto à rachadura, segundo ele, trata-se de um problema antigo cuja evolução tem sido acompanhada de perto pela ordem. “Ela surgiu depois da construção das torres da Universidade Cândido Mendes (cada uma delas com 43 andares), erguida em 1978”, disse.

Além da antiguidade e da beleza desta que é a única igreja colonial do Rio com pilastras jônicas, portais, janelões e frontão típicos do barroco, ela possui outro pedigree especial: são do mestre Valentim as talhas douradas do interior sobre fundo claro, hoje um tanto desbotadas e carentes de brilho. A decoração do interior, na realidade, começou em 1768 pelo entalhador Luiz da Fonseca Rosa, que ganhou a participação de Mestre Valentim de 1780 a 1800.

As obras, realizadas de 1755 a 1770, deixaram as torres inacabadas, que de 1847 a 1850 foram revestidas de azulejos portugueses azuis e brancos. Esta etapa final da construção ficou a cargo do arquiteto Manoel Joaquim Melo CorteRreal, professor de Desenho da Academia Imperial de Belas Artes. De 1829 a 1855, as paredes da única nave do templo foram preenchidas com talhas executadas pelo escultor Antônio de Pádua de Castro.

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