Rio

A charmosa Santa Teresa naif-tropical

Mais de 100 postes do bairro foram decorados por ceramista e artista plástica catarinense

Salta aos olhos a quantidade de grafitis que decoram as paredes de Santa Teresa. Um olhar mais atento, porém, vai detectar detalhes que parecem ser exclusivos do boêmio e charmoso bairro da Zona Central da cidade: os postes com motivos que vão de florais a reproduções dos famosos bondes que circulam por ali. A obra, assinada pela ceramista e artista plástica Ana Cristina Souza, catarinense de 50 anos, decora não apenas os postes – muito numerosos, também pela exigência das linhas aéreas dos bondes -, como as fachadas de vários restaurantes e lojas de artesanato. Viraram uma espécie de digital da artista, cada vez mais presente por toda a parte.

Concentrados sobretudo ao redor do polo gastronômico predominante em ruas como a Paschoal Carlos Magno, Áurea e nos trechos mais turísticos da Almirante Alexandrino, próximo ao Largo dos Guimarães, eles têm coloridos vivos que alternam fundos azuis, verdes, amarelos e brancos, e misturam flores como hibiscos, antúrios e margaridas, ou ainda frutas que vão de cerejas a morangos passando por abacaxis. Seria uma boa definição para o trabalho o estilo naif-tropical. O restaurante Cantinho de Santa Teresa, no trecho plano da Rua Aarão Reis, foi um que aderiu e ganhou delicadas reproduções de trepadeiras cor de rosa em sua fachada. Em frente a um restaurante de frutos do mar no Largo dos Guimarães, o poste foi decorado com peixinhos que nadam sobre um fundo azul da cor do mar.

Nascida em Florianópolis, Ana Cristina mora em Santa Teresa desde de 2013 e teve alguma dificuldade em dar continuidade aqui a seu trabalho de ceramista, por conta dos altos preços da argila. “Tudo começou há dois anos, com um comerciante que me pediu para pintar o poste perto de seu estabelecimento, na Rua Áurea. Depois todos começaram a querer e a coisa foi crescendo. Hoje são mais de 100 postes pintados”, contabiliza ela, que cobra um valor simbólico para comprar as tintas e está conseguindo sobreviver da atividade, que atraiu ainda convites para pinturas de paredes, fachadas e interiores de casas.

Bar do Mineiro

Diógenes Paixão, mineiro, 79, que toca o famoso bar com o nome de seu estado criado por seu irmão, já falecido, Emanuel César, foi um que não hesitou em pagar a ajuda de custo sugerida por Ana Cristina para pintar três postes vizinhos a seu estabelecimento. “Estou aqui há 30 anos no bar aberto por meu irmão, que bebia todas e a casa faliu, quando comecei a tocar de fato. A casa, que emprega cinco sobrinhos meus, foi ganhando fama e achei que seria uma boa ideia ajudar a Ana Cristina a deixar os postes mais coloridos”, diz ele, que não se arrepende nem um pouco dos resultados, que ajudam a atrair turistas.

Algo parecido ocorreu na loja de artesanato La Vereda, na Almirante Alexandrino, cuja fachada usa como decoração dois barris de metal pintados pela artista de verde, com flores azuis, vermelhas e amarelas. “Ana Cristina é amiga da proprietária. De nossa parte, foi só sugerir o tema e as cores”, conta a funcionária MichaelaSaborido, 25 anos.

As turistas israelenses YuvalYefet e ShaiBergkowitz, ambas estudantes de 22 anos, estão no Rio pela primeira vez, se hospedaram na orla de Copacabana e resolveram conhecer de perto o bairro com fama de histórico e boêmio de Santa Teresa. Caminhando pela Rua Paschoal Carlos Magno elas se encantaram com os postes de Ana Cristina e aproveitaram para fazer selfies com um deles ao fundo. “São muito lindos, nunca tinha visto nada parecido”, elogiou Shai.

Quem aplaude a iniciativa é Teresa Cristina de Cruz, que cuida dos temas culturais da Associação de Moradores de Santa Teresa (AMAST): “Achamos uma graça, são trabalhos super autorais, lindos!”.