Rio

Consulado dos EUA anuncia patrocínio para conservar o Cais do Valongo, que começa a receber restauração a partir de dezembro

Único vestígio material da entrada de cerca de um milhão de escravos no continente americano, o Cais do Valongo, na Zona Portuária, vai começar, enfim, a virar um museu a céu aberto. Com dois anos de duração, o trabalho de conservação do espaço será iniciado no mês que vem, a partir de investimentos de US$ 500 mil (cerca de R$ 2 milhões) do Fundo dos Embaixadores dos Estados Unidos para a Preservação da Cultura. A proposta, assinada ontem no local, também envolve o Instituto de Desenvolvimento e Gestão (IDG), o Instituto do Patrimônio Histórico Nacional (Iphan) e a Secretaria Municipal de Cultura do Rio.

Oficializado na semana em que se comemora o Dia da Consciência Negra, o acordo vai iniciar pelas ações de restauração do pavimento original de pedras, pela drenagem da água da chuva e pelo reforço estrutural das paredes, fundações e superestrutura. Para a secretária municipal de Cultura, Nilcemar Nogueira, “este cais tem uma importância enorme, se considerarmos que 53% da população deste país é negra. Trata-se de um marco da presença negra no Brasil”, afirmou. “A parceria vai permitir que ressignifiquemos um local que representa um momento doloroso da nossa história”, disse o diretor-presidente do IDG, Nelson Piquet.

Macaque in the trees
Acima, a placa que registra o acordo. Abaixo, Luiz Eduardo Negro Ogum e Adriana Odara Martins, representantes da Comissão Pequena África, que participaram da cerimônia (Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil)

Essa será a primeira grande intervenção desde a obtenção do título concedido pela Unesco. Ao falar da iniciativa, o cônsul-geral dos Estados Unidos no Rio, Scott Hamilton, afirmou que “o projeto contribui para manter para sempre viva a memória da escravidão. E preservação desta memória é fundamental para que esta tragédia não venha a se repetir em nenhum outro lugar do mundo”.

Para a superintendente do Iphan no Rio, Mônica da Costa, “mais do que um local de sofrimento e repressão, o Cais do Valongo é um marco de resistência e de luta. Que este resgate seja fundamental para a formação de inúmeras outras parcerias, pois ainda há muito que se fazer para que haja um mínimo de retratação. O que nós preservamos é a vida e, no caso do Cais do Valongo, não só a vida mas a liberdade que deve estar presente sempre e em qualquer lugar”.

Histórico

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Nilcemar Nogueira, secretária municipal de Cultura (Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil)

Até o início da década de 1770, os escravos provenientes de Angola, da África Oriental e Centro-Oriental desembarcavam na Praia do Peixe, atual Praça XV. Dali seguiam para a vizinha Rua Direita, onde eram negociados a céu aberto. Entretanto, uma nova legislação, de 1774, transferiu o sórdido comércio para a região do Valongo. A iniciativa foi de Luís de Almeida Portugal Soares de Alarcão d’Eça e Melo e Silva Mascarenhas, segundo Marquês de Lavradio, chocado com “o terrível costume de tão logo os pretos desembarcarem no porto vindos da costa africana, entrarem na cidade através das principais vias públicas, não apenas carregados de inúmeras doenças, mas nus”.

A transferência foi feita, contudo, por falta de um ancoradouro, os escravizados desembarcavam na alfândega e seguiam de bote até o Valongo, de onde saltavam direto na praia. O comércio foi finalmente estabelecido no local em 1779 e, em 1808, começou seu período mais intenso, com a chegada da família real e a transferência da corte portuguesa para o Rio, quando a população da cidade quase dobrou, chegando a 30 mil habitantes. Mesmo com a proibição do tráfico negreiro, em 1831, o comércio foi mantido em portos clandestinos. O apogeu da atividade se deu em 1820, quando a cidade se firmou como um importante entreposto comercial de escravizados, cuja porta de entrada era o Cais do Valongo.

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Mônica da Costa, superintendente do Iphan no Rio (Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil)

Um aterro de 60 centímetros de espessura, porém, mudou radicalmente a função do Cais do Valongo em 1843, que ganhou um novo ancoradouro para receber a princesa Teresa Cristina, futura esposa do imperador D. Pedro II. Passa então a se chamar “Cais da Imperatriz”, soterrado em 1911 pela reforma urbana do prefeito Pereira Passos.

Cem anos depois, durante as escavações realizadas como parte das obras de revitalização da Zona Portuária, foram descobertos os dois ancoradouros — Valongo e Imperatriz —, um sobre o outro. Com eles, uma grande quantidade de amuletos e objetos de culto originários do Congo, de Angola e Moçambique. O Iphan e a Prefeitura do Rio passaram a elaborar um dossiê para a candidatura do sítio arqueológico ao título de Patrimônio da Humanidade da Unesco, conquistado em 2017, durante a 41ª sessão do comitê da Unesco.



Acima, a placa que registra o acordo. Abaixo, Luiz Eduardo Negro Ogum e Adriana Odara Martins, representantes da Comissão Pequena África, que participaram da cerimônia
Nilcemar Nogueira, secretária municipal de Cultura
Mônica da Costa, superintendente do Iphan no Rio