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Ambientalistas criticam proposta de autódromo em Deodoro, na Zona Oeste do Rio

Jornal do Brasil ROGÉRIO DAFLON, rogerio.daflon@jb.com.br

O Rio de Janeiro disse adeus em 2012 ao Autódromo Internacional Nelson Piquet, aquele chamado de Jacarepaguá numa alusão à lagoa contígua, para abrir espaço ao Parque Olímpico dos Jogos de 2016. Desde então, a Confederação Brasileira de Automobilismo (CBA) e grupos associados ao esporte lutam para que o município tenha um novo autódromo. O projeto, contudo, está parado nos boxes movimentados pela polêmica, na qual a proteção ao meio ambiente é um argumento utilizado por quem torce o nariz à iniciativa. De um lado, ambientalistas defendem um parque público, ao invés de uma instalação da pista de corrida, já que, no lugar em disputa, há a Floresta de Camboatá, em Deodoro, na Zona Oeste. Do outro lado, os aficionados pela velocidade brigam por uma estrutura para importantes competições internacionais da modalidade.

O que há de mais novo nessa celeuma é o seguinte: a Prefeitura do Rio abriu uma Proposta de Manifestação de Interesse (PMI).A PMI é uma concorrência, sem custo para a administração pública, para que empresas elaborem um projeto para a instalação de uma estrutura e forneçam uma ideia do custo dessa implantação. Após uma consulta pública, que pode suprimir ou acrescentar itens a ela, a PMI dá base a um edital de uma nova concorrência, e a companhia ganhadora da PMI pode concorrer para a construção. Se perder, os custos do projeto para a PMI são ressarcidos pela firma vitoriosa.

Macaque in the trees
A Prefeitura está em fase de consulta pública para a construção de um autódromo na Floresta de Camboatá, em Deodoro (Foto: Reprodução)

A PMI da prefeitura para a construção do autódromo teve como vencedor o consórcio Riomotorsport. “Após a escuta pública, que vai durar em torno de 30 dias, o edital já deve ser uma realidade na primeira quinzena de novembro”, disse José Antônio Pereira Júnior, diretor do consórcio. Procurada pelo JORNAL DO BRASIL, a prefeitura não fez prognóstico sobre o edital, mas deixou claro, em nota, que o projeto do autódromo está em seu radar: “A Subsecretaria municipal de Projetos Estratégicos informou que o Município está em negociações com o Comando do Exército e com o Ministério do Esporte para a transferência da titularidade da área. As questões ambientais serão tratadas oportunamente e nenhuma obra será executada sem as devidas autorizações e licenças de órgãos competentes”.

A nota traz esclarecimentos. O primeiro: a Floresta de Camboatá, para desespero de ambientalistas, é o lugar escolhido pelo poder público para receber o autódromo. O segundo: a floresta pertence à União e, por isso, a prefeitura negocia que ela seja transferida para o município. Terceira: a prefeitura está preocupada com as repercussões negativas em relação ao risco de alteração da biodiversidade daquele bosque.

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Ambientalistas defendem que se trata de uma biodiversidade rara no Rio de Janeiro (Foto: Reprodução)

Após audiência pública sobre o assunto, os deputados estaduais Carlos Minc (PSB) e André Lazaroni (MDB) protocolaram um projeto de lei para que a área, bem próxima ao Parque do Mendanha, seja incorporada ao terceiro maciço da cidade (os outros dois são o da Pedra Branca e o do Tijuca). O ambientalista André Ilha, que integra o Conselho Municipal de Meio Ambiente, foi quem forneceu subsídios ao projeto de lei dos dois parlamentares. Ele listou ao JB os motivos por que considera “um absurdo” um autódromo ali, numa unidade de conservação. “Há alguns metros dali, há uma área bem degradada que pode ser recuperada para servir a um autódromo. E a legislação ambiental exige que o Estudo e Relatório de Impacto Ambiental (Eia Rima)preveja, pelo menos, duas áreas alternativas à escolhida. Outra razão contrária à instalação de um autódromo é que a Floresta de Camboatá, de 150 hectares, possui um tipo de mata raríssimo, de terras baixas, com espécies únicas desse tipo de formação. O lugar é o último remanescente do Rio desse tipo de floresta, cuja importância já foi atestada pelo Instituto de Pesquisa do Jardim Botânico. Aquela conformação também faz as vezes de pedra do meio do rio, aquela em que pisamos para chegar ao outro lado da margem. Ela fica entre os maciços Mendanha e da Pedra Branca. E leva espécies da fauna a transitar entre os dois, enriquecendo a biodiversidade”, ponderou Ilha, que considera “um deboche” falar em autódromo parque: “Imagina a floresta com pista, boxes, área de negócios, arquibancadas...”., ironizou.

O Ministério Público Estadual (MPE) conseguiu, na Justiça, vetar o primeiro projeto de autódromo feito pela Fundação Getulio Vargas, contratada pelo Ministério dos Esportes em 2011. O MPE argumentou que o projeto não continha o Eia Rima. No PMI promovido pela prefeitura, o projeto vencedor, é claro, propõe o Eia Rima como pré-requisito. No edital ainda a ser publicado, deve constar que o ganhador da concorrência terá de construir a autódromo e administrá-lo, por concessão. Isso para diminuir o investimento público diante da crise fiscal municipal.

O projeto, de acordo com o vencedor do concurso de ideias, tem números superlativos: R$ 774 milhões de custo total da obra, com conclusão m 2020. A extensão da pista é de 5.386m, com 20 curvas e uma grande reta de 723 metros. A capacidade é para 78 mil pessoas, com uma arquibancada principal com 20.500 lugares e 1.850 lugares em espaços VIPs. A área vip, por sinal, teria 15 mil metros quadrados; e a Sala de Imprensa, 1,5 mil metros quadrados.

A velocidade da polêmica, portanto, tende a fazer ainda mais ruído.



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