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A importância do Setembro Amarelo

Campanha contra suicídio tenta baixar índices registrados no país

Jornal do Brasil SÔNIA APOLINÁRIO, sonia.apolinario@jb.com.br

Era uma vez um jovem que costumava ter amigos, mas passou a se isolar. O desempenho escolar despenca e o olhar pouco expressa algum sentimento. Seu humor se torna instável e o comportamento descamba para a agressividade. Esse jovem não sabe, mas acendeu uma luz amarela de alerta. Ele tem muitas “credenciais” para se tornar estatística.

No Brasil, o suicídio é a terceira maior causa de morte entre homens jovens, de 15 a 29 anos, perdendo somente para a violência e acidentes de trânsito. Entre as mulheres, na mesma faixa etária, é a oitava causa de mortes. Em números absolutos, o país está em oitavo lugar no ranking do suicídio, abrangendo todas as faixas etárias, sendo o Rio Grande do Sul o estado que registra o mais alto índice de pessoas que tiram a própria vida.

Esses são alguns dados que nortearam, este ano, no país, a campanha Setembro Amarelo, de prevenção ao suicídio. Criada em 2015, é uma iniciativa do Centro de Valorização da Vida (CVV), Conselho Federal de Medicina (CFM) e Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Desde 2003, o dia 10 de setembro é o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio. Este ano, o tema da campanha foi “Trabalhando Junto para Prevenir o Suicídio”. Faz parte das ações iluminar monumentos com luzes amarelas.

Presidente da Associação Psiquiátrica do Estado do Rio de Janeiro (APERJ) e diretora da ABP, Fátima Vasconcellos explicou que a campanha tem como objetivo mobilizar, informar e “lutar contra o estigma” que se tem em relação a problemas mentais, que, segundo ela, são responsáveis quase que integralmente pelas mortes por suicídio. Isso porque, como alertou, esses problemas, na sua maioria, não são nem mesmo diagnosticados ou são tratados de forma inadequada ou sequer chegam a ser tratados. No rol desses problemas, está “enquadrada” a depressão que, segundo informou, é responsável por 35,8% das causas de suicídio.

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Os Arcos da Lapa iluminados de amarelo para a campanha: Rio tem o menor índice do país 2,4% por mil habitantes (Foto: Divulgação)

“Muita gente não sabe que tem depressão. Muitos têm preconceito em relação a essa doença. É comum falarem de uma pessoa com depressão que ela é fraca. Mas se trata de uma doença que tira a capacidade de uma pessoa de usar suas forças internas. É preciso que se possa falar sobre depressão”, sublinhou Fátima.

Dados do Ministério da Saúde citados por ela informam que o Brasil é o oitavo país em números absolutos de suicídio. Por ano, 12 mil pessoas se matam. Em todo o mundo, segundo a Organização Mundial de Saúde, 800 mil pessoas tiram a própria vida. A médica observou que a crise econômica, como causa de desemprego, violência e perda de relacionamentos, está por trás dessa “epidemia”, por serem fatores que empurram as pessoas para o estado de depressão.

No ranking brasileiro, o Rio Grande do Sul lidera com 10,2% de casos de suicídio para cada 100 mil habitantes. Em segundo lugar, vem Roraima, com 8,3%, seguido pelo Mato Grosso do Sul , com 8,1%. São Paulo é o 18º colocado com 4,5%. O Rio de Janeiro é a cidade com o índice mais baixo, em todo o país: 2,4% por mil habitantes.

O aumento da incidência de suicídio entre os jovens brasileiros começou a ser percebido partir do ano 2000. Até então, explicou Fátima, a maior ocorrência se dava entre idosos, em grande parte, aposentados. No caso dos jovens, ela apontou que questões como separação dos pais, incerteza em relação à orientação sexual, bullying, maus tratos e abusos físicos e psicológicos podem motivar comportamentos suicidas, pelas mãos da depressão.

Gratuidade do 188

Desde julho passado, as ligações de prevenção de suicídio feitas para o Centro de Valorização da Vida (CVV) por meio do número 188 se tornaram gratuitas em todo o Brasil. Até então, o serviço gratuito não era disponível nos estados da Bahia, Maranhão, Pará e Paraná.

Em 2017, o CVV registrou cerca de dois milhões de atendimentos. Até o final do ano, são esperados mais de 2,5 milhões de ligações para o 188. Fátima ressaltou a importância do atendimento presencial feito pelo CVV nas suas 89 unidades, espalhadas pelo país. “Eles fazem um trabalho de grupo com sobreviventes, inspirados nos Alcoólicos Anônimos. Entendemos que existem dois tipos de sobreviventes. Os que tentaram o suicídio e não morreram e as pessoas que precisam enfrentar o luto pelo suicídio de uma pessoa próxima. Cada um que se mata impacta a vida de outras seis”, informou Fátima.



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