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Descendente da família real se revolta com descaso que destruiu o Museu Nacional

Jornal do Brasil CELINA CÔRTES, celina.cortes@jb.com.br

O empresário e fotógrafo D. João Henrique de Orleans e Bragança, 64 anos, um casal de filhos do primeiro casamento e um casal de netos de seu primogênito, sente mais revolta do que tristeza pelo incêndio que consumiu 200 anos de história do país. Foi lá que viveram seus antepassados, Pedro I e Pedro II, até a Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, no espaço nobre do bairro de São Cristóvão, na Zona Norte, onde também levou seus filhos. Não teve tempo, porém, de levar os netos. O príncipe, como é informalmente chamado, vive em Paraty, onde trabalha e está em seu segundo casamento com a artista plástica Cláudia Melli, assistiu o incêndio pela televisão. Assíduo leitor de história, sobretudo sobre sua família, D. João acha que o Brasil vive um momento “sombrio” e não vê perspectivas de melhora nas próximas eleições, com a provável perpetuação da classe política que se mantém no poder. “A origem dessas cinzas é o retrato de nosso país. As eleições serão mais do mesmo”, lamenta.

Como senhor se sentiu ao ver que o Museu Nacional, onde viveram seus antepassados, ardia em chamas?

Acompanhei o incêndio até a meia noite pela TV. Meu sentimento foi de revolta, mais do que de tristeza. Aquilo poderia ter sido evitado, todos são culpados, com essa classes de dirigentes que temos, tanto de esquerda quanto de direita. Todos saquearam o Brasil. Nossa classe política não tem nenhuma visão de estado ou de futuro. Temos quadrilhas no governo que mais se assemelham a facções criminosas. Estão juntas quando é do interesse delas, como ocorre com esse centrão. Os que disseram que houve golpe com o impeachment agora estão em oito estados brasileiros apoiando os mesmos golpistas. O futuro do nosso país com esses políticos é sombrio. Nenhum deles é digno sequer de andar nas ruas. Têm que estar presos, há provas para estas prisões e elas são legitimas. A origem dessas cinzas é um retrato do nosso país.

Então o senhor não está nada otimista em relação às próximas eleições...

O que vemos é mais do mesmo, centrões, todos aliados. Não espero mudança nenhuma, a não ser que ocorra uma grande reforma para mudar o país. As leis foram criadas por eles para eles, e impedem o surgimento de novas lideranças. Os filhos dos piccianes, cabrais, barbalhos, cunhas, estão aí para dar continuidade às quadrilhas. Não muda, só piora. Faltou água na hora de apagar o fogo, o museu não tinha alvará de funcionamento. O gasto ao longo do ano foi de R$ 560 mil, mesmo valor gasto pelo Senado para a lavagem de carros. São políticos com seguro saúde eterno, não pode dar certo. Os estádios de futebol que construíram estão vazios, as refinarias paradas, quem são os responsáveis por tudo isso? O estado brasileiro precisa de uma reforma total, seria o único jeito para afastar essa classe política que saqueia o país. Essas eleições serão mais do mesmo.

O senhor vê algum risco específico em relação às eleições?

Sim. Acabo de ler “Ruptura: a crise da democracia liberal”, do espanhol Manoel Castells, e “How democracie die”, de dois cientistas políticos da Universidade de Harvard, Steven Levitsky e Daniel Zeblat, sobre como líderes eleitos podem submeter gradualmente o processo democrático para aumentar seu próprio poder. Os dois livros falam da crise mundial da democracia, da descrença generalizada à promessa de melhor distribuição de renda. O resultado é uma aversão à globalização, que prometeu muito e não cumpriu. O que se vê são ataques à democracia no mundo inteiro, como na Turquia e nos próprios Estados Unidos, o que é perigosíssimo. No Brasil, este risco é protagonizado por Bolsonaro, que representa o voto de revolta com tudo o que está aí. As pessoas não se conformam com esses políticos que quebraram o país.

O senhor participou das comemorações pelos 200 anos, saiu de lá com que tipo de expectativa em relação ao museu?

Participei e fiz um pequeno discurso. Não havia um único ministro de estado na cerimônia que comemorava os 200 anos da instituição científica e cultural mais antiga da América do Sul, em um país tão jovem como é o Brasil. O museu estava bonito, com as coleções etruscas trazidas por minha trisavó, a imperatriz Teresa Cristina, e com as múmias, compradas pelo imperador Pedro I em 1827, entre outras raridades. O que aconteceu foi um descaso que é o retrato do Brasil. Aqui, a média de salário do funcionalismo público é dez vezes maior que o do setor privado. Não pode dar certo. A classe política se aposenta pelo último salário, o que também tem contribuído para quebrar o país.

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"O Brasil necessita de uma reforma completa, seria o único jeito para afastar essa classe politica que saqueia o país" (Foto: Acervo pessoal)

O senhor gostava de frequentar o museu quando criança, tem alguma recordação especial desse período? Tinha alguma preferência?

Sim, meus pais me levavam e sempre gostei de ir ao Jardim Zoológico, de ver no museu os esqueletos do dinossauro, da baleia. Também levei meus filhos ao museu várias vezes. No dia das comemorações pelos 200 anos, disse ao Alexander Kellner (atual diretor do Museu Nacional) que levaria meus netos, que estavam morando fora do Brasil. Mas não deu tempo. É um parque bonito para passear, e claro que eu tinha carinho especial por tudo aquilo, onde meu trisavô, Pedro II, brincava quando pequeno. E há 20 anos o Banco Mundial ofereceu financiar o museu se ele virasse uma OS, como revelou o então prefeito, Israel Klabin, e mais tarde o banco também se propôs a dar suporte à instituição com uma doação. Tudo foi negado.

Em relação ao acervo de sua família, qual teria sido a maior perda?

Havia a carta da declaração de independência de Portugal, assinada por minha tataravó, Leopoldina, documento que virou cinza. E ainda as coleções de mineralogia dela, documentos do império, do Brasil colônia, etnologia riquíssima, gravações de 40 anos de tribos que acabaram e a língua se extinguiu junto, havia registros de tudo isso. Foram 200 anos de reunião da identidade brasileira, da cultura, da formação do Brasil como nação. Os responsáveis são criminosos. Uma única escada magirus para combater o fogo, hidrantes sem água, o prédio sequer tinha alvará de bombeiros. Nosso país está em escombros.

Há uma informação de que todo o patrimônio que ficou para trás quando a família real foi banida do país na Proclamação da República foi amontoado em 14 lotes para serem leiloados, e que o primeiro deles, o mais valioso, simplesmente desapareceu. O que o senhor sabe a respeito?

Tudo o que estava no Paço de São Cristóvão, como era chamado o palácio, pertencia ao estado, nunca foi de D. Pedro II. O imperador pagava as viagens que fazia para o exterior com seu próprio bolso, com o dinheiro que pegava emprestado no banco. Com o golpe, os militares reuniram tudo o que estava nas residências particulares da família real, que eram o Museu Imperial de Petrópolis, de Pedro II, e o Palácio Guanabara, onde vivia a princesa Isabel. Puseram tudo em um barco particular que também pertencia a ela e mandaram para o exílio. Depois, foi organizado o famoso Leilão do Paço, de todo o mobiliário que estava lá, arrematado por famílias da época. O mobiliário pertencia ao estado, o leilão foi uma iniciativa de pequenez para apagar a história do país. Sobre esse sumiço, eu nunca soube.

O senhor pretende fazer doações de seu acervo pessoal ao museu. Já tem alguma ideia do que será doado?

Pretendo fazer um empréstimo das peças do império que são de minha propriedade. São moveis, quadros, porém, tudo será decidido em conjunto com o Instituto Brasileiro de Museus (Ibram).



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