Jornal do Brasil

Rio

Heróis do resgate ao que restou do museu

Grupo de pesquisadores desafia as chamas na tentativa de salvar pesquisas e coleções da instituição

Jornal do Brasil MARIA LUISA DE MELO, malu@jb.com.br

Há 25 anos, as idas quase diárias ao Museu Nacional, desde quando ainda era estagiária de Biologia Marinha, eram recheadas de entusiasmo. Na noite de domingo, no entanto, o que motivou a professora Cristiane Serejo a dirigir desesperadamente de sua casa, na Lagoa, até São Cristóvão, foi o medo de perder, para as labaredas, todo material de pesquisa seu e de seus alunos. Em 20 minutos, chegou no Bairro Imperial. Com a ajuda do marido e do filho de 10 anos, arrombou a porta de acesso ao Torreão Norte, parte esquerda do Museu — última a ser atingida pelas labaredas. De lá, conseguiu resgatar cinco computadores, microscópios e lupas, além de vidros com coleções do Laboratório de Carcinologia — ramo da zoologia que estuda os crustáceos —, uma de suas especialidades.

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Um dos voluntários que se arriscaram na tentativa de salvar o acervo do museu (Foto: Fernando Souza/Divulgação/AdUFRJ)


Ainda no calor — não só no das chamas, mas também no da emoção —, Cristiane despencou em lágrimas. “Se pegasse fogo na minha casa, não seria tão chocante e triste para mim. Perdemos muitas coleções e partes da nossa vida e da nossa história. Tínhamos consciência da fragilidade do museu. Por isso, já reivindicávamos um terreno para construir um novo prédio e retirar as pesquisas e coleções dali. Não faltava só verba, mas também olhar para o museu com a devida importância e respeito”, criticou ela, que também é vice-diretora da unidade. Amparada pela família, ela acompanhou até a madrugada seguinte, o trabalho dos homens do Corpo de Bombeiros, ciente de que a maior parte dos invertebrados colecionados ali ficou para trás.


Mais adiante, Eduardo Serra, pró-reitor de graduação da UFRJ, universidade à qual o museu é subordinado, também integrava a brigada de heróis que conseguiu retirar algumas peças antes da completa destruição pelas chamas. “Nosso esforço foi para tentar salvar parte do patrimônio. Conseguimos retirar peças de pesquisas, documentos e alguns equipamentos. Só não conseguimos salvar mais coisa, porque muita gente foi barrada pelos seguranças e guardas. Não conseguiram entrar. Afinal, o prédio estava em chamas”, contou Serra.


Só quem chegou ainda no início do incêndio conseguiu atravessar o portão de acesso ao museu. A cada minuto, mais pesquisadores, alunos e colaboradores da instituição se aglomeravam no portão. Na tentativa de entrar, houve empurra-empurra com os guardas municipais e muito desentendimento. Aos prantos, todos acompanhavam as chamas de longe.

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O pró-reitor de Graduação, Eduardo Serra participou do mutirão (Foto: Fernando Souza/Divulgação/AdUFRJ)


Emocionada, a museóloga Márcia Vale foi chamada pelos colegas que estavam lá dentro e teve a entrada permitida. Foi incumbida de selecionar dez colegas para entrar com ela e ajudar a retirar o que ainda desse tempo. Do portão até o museu, o grupo combinou que faria o possível para resgatar os trabalhos, mas sem arriscar suas vidas. Tarde demais. Era pouco mais de 21h quando, diante do prédio em fogo, o grupo foi desaconselhado a qualquer tentativa de resgate. Todos tiveram que se afastar. O risco era de explosão.


Trêmula, a geóloga Maria Elizabete Zucolotto, do Departamento de Geologia e Paleontologia, furava, pela lateral direita, o limite imposto por agentes do Corpo de Bombeiros e da Guarda Municipal. Denunciava que o combate foi muito atrasado pela falta d’água. A denúncia, minutos depois, foi confirmada pelo comandante do Corpo de Bombeiros. “Não se combate fogo sem água. Eles só nos afastavam. Isso era pra gente não ver. Tenho certeza”, criticou Maria Elizabete. Depois que o fogo tomou o lado esquerdo do Museu, sua preocupação virou-se para o prédio anexo: “Vocês têm que evitar chegar no anexo!”, gritava, ao passo que era respondida por agentes: “Nós sabemos o que estamos fazendo!”.

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A bióloga Cristiane Serejo participou do mutirão (Foto: Fernando Souza/Divulgação/AdUFRJ)


Os pesquisadores que conseguiram resgatar seus pertences ou uma fração de suas coleções foram minoria. “Só no primeiro andar estavam rochas, meteoritos, fósseis, múmias, o primeiro dinossauro de grande porte montado no Brasil, móveis da família real... Quando a gente vê o fogo, é arrepiante. Logo no início, as chamas estavam só de um lado do museu, por isso a nossa insistência para entrar e resgatar o que fosse possível. Mas, infelizmente, só nos afastaram e não apagaram o fogo. Deixaram alastrar muito alegando falta d’água. A demora para começarem a jogar água em tudo, deixando as chamas se alastrarem, foi o que mais nos desesperou. Nossas exposições foram completamente perdidas”, contou Bete. Só na manhã de ontem, já de capacete, ela conseguiu recuperar 18 de seus 24 meteoritos. Resistentes ao fogo por serem de ferro maciço, as rochas não foram danificadas. Mas nem todas puderam ser encontradas. O principal deles, o meteorito Bedengó, o maior do país, com 5,36 toneladas, ficou intacto.


Só na tarde de ontem, por volta das 15h, os funcionários foram autorizados a entrar o Museu para resgatar algumas peças. Geralmente, o trabalho de rescaldo é feito só pelos bombeiros, mas, como são peças antigas, foi necessário acompanhamento de especialistas, para distinguir um simples resto de escombro de um artigo valioso. Uma das primeiras peças retiradas foi um grande quadro, ainda emoldurado, carregado por quatro funcionários. O trabalho é lento e minucioso, pois muitas peças ainda podem estar em condições de recuperação, debaixo de toneladas de madeira queimada e telhas de barro. Os três andares do museu desabaram um por cima do outro até o chão.


Ainda não há pistas sobre as causas do incêndio. O ministro da Cultura, Sérgio Sá Leitão, disse que ele pode ter sido provocado por um curto-circuito ou um balão. Segundo o jornal “Extra” a gestora em educação da Fiocruz, Maria Emilia Boueri Rossigneux, de 54 anos, viu um grande balão caindo na parte de trás do palácio. (Com Agência Brasil)



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