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O que o futuro não conhecerá

Menos de 10% dos 20 milhões de itens resistiram ao incêndio, que deixa uma enorme lacuna para futuras gerações

Jornal do Brasil JOHANNS ELLER*, johanns.eller@jb.com.br

As cinzas e destroços que jazem embaixo de toneladas de escombros transformaram o Museu Nacional em uma urna de restos mortais de duzentos anos de esforços pela construção da memória brasileira e mundial. O incêndio que devastou o Palácio São Cristóvão entre a noite de domingo e a madrugada de ontem tem nuances de uma tragédia mundial, com a perda irreparável de itens e coleções raros e, por vezes, únicos de culturas e povos milenares em todo o planeta que não serão conhecidos pelas futuras gerações de brasileiros. Segundo a vice-diretora da instituição, Cristiana Serejo, menos de 10% do patrimônio de 20 milhões de objetos foi recuperado.

Macaque in the trees
Esqueleto de dinossauro reformado após ataque de cupins dificilmente resistiu ao incêndio (Foto: Marcos Tristão)


De sarcófagos egípcios a objetos de civilizações ameríndias, passando por artefatos greco-romanos e indígenas, o fogo consumiu em poucas horas acervos que resistiram à ação de milhares ou centenas de anos. Já o meteorito Bendegó, de cinco mil toneladas, resistiu ao calor intenso. Encontrado em 1784 na Bahia e levado para o museu em 1888, ainda no período imperial, é até agora o único sobrevivente em meio aos escombros. Além dele, ainda de acordo com Serejo, foram preservadas parte da coleção de zoologia, a biblioteca central do museu, cerâmicas, minerais e itens do departamento de vertebrados.

Embora as coleções de história natural tenham destaque no museu universitário, o palácio preservava um retrato único da história do Brasil. Antiga residência da família real, quatro monarcas de Portugal e dois imperadores do Brasil viveram no edifício, que reunia relíquias e documentos devastados pelo fogo.

O crânio de Luzia, o fóssil humano mais antigo já encontrado nas Américas, foi um dos itens mais lembrados, mas, ainda que tenha sido preservado pelas chamas, é improvável que tenha resistido ao colapso do telhado e dos pavimentos superiores do palácio. “As pessoas foram de manhã tentar achar a Luzia, mas parece que ela estava em uma caixa e há muitos escombros. Não sabemos se dentro dessa caixa ela possa ter resistido”, relatou Serejo à Agência Brasil.

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Já o meteorito Bendegó, na entrada do museu, resistiu em meio aos escombros (Foto: Marcos Tristão)


Os fósseis de dinossauros, uma das grandes atrações da instituição, também dependerão de buscas minuciosas. A maior parte dos esqueletos expostos é composta por réplicas, enquanto o material original era mantido em armários que podem não ter resistido ao impacto dos escombros.

Outra raridade perdida para sempre foi o caixão da cantora-sacerdotisa Sha-Amun-en-su, datado de 750 a.C., um presente recebido pelo imperador D. Pedro II durante uma viagem ao Egito em 1876. A esquife era uma das únicas mantidas seladas no mundo. Múmias que faziam parte do patrimônio da instituição também não resistiram. O Museu Nacional tinha o maior acervo de cultura egípcia na América Latina.

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Crânio de Luzia dificilmente resistiu ao incêndio (Foto: AFP)


A ala africana foi completamente destruída. “Eram peças valiosas. Coisas que não têm em nenhum outro museu do mundo”, explicou a curadora Mariza Soares. Um dos principais itens da ala, o trono de Daomé, atual Benin, doado pelo rei Adandozan a D. João VI em 1811, também virou cinzas.

O professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Paulo Buckup, que entrou no palácio durante o incêndio na tentativa de resgatar peças do acervo, relatou em seu perfil no Facebook a possibilidade de preservação de itens como invertebrados e insetos dípteros (de duas asas), mantidos no anexo Alípio de Miranda Ribeiro, que se manteve intacto. Os departamentos de vertebrados e botânica, assim como o laboratório de arqueologia e o pavilhão de salas de aula, também não foram atingidos pelo incêndio.

* Com supervisão de Denis Kuck



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