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Duzentos anos em chamas

Incêndio destrói Museu Nacional e transforma em cinzas 20 milhões de itens

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Boa parte da memória do Brasil foi destruída ontem pelo fogo que tomou os três andares do Museu Nacional do Rio de Janeiro. Um incêndio de proporções ainda incalculáveis atingiu, por volta das 19h30, o museu que fica localizado no parque nacional da Quinta da Boa Vista, em São Cristóvão, na zona Norte.

Até as 22h30, o fogo não havia sido controlado pelo Corpo de Bombeiros, que chegou ao local para combater o incêndio por volta das 20h20. Foi solicitado apoio de sete quartéis. Testemunhas relataram que houve dificuldade por parte da corporação para puxar água. Quatro vigilantes estavam no local, mas conseguiram sair a tempo. Não houve feridos. O museu ficava aberto de terça a domingo e nos feriados, das 10h às 16h, e fechou ontem às 17 horas.

Macaque in the trees
De Santa Teresa, a imagem do incêndio no prédio do Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista, que teve início por volta das 19h30 (Foto: Marcos Tristão)

O fogo atingiu todo o edifício – duas áreas em que estão coleções e exposições, além da parte administrativa. O indígena Urutan Guajajara, de 57 anos, presente no entorno do incêndio, lamentou a perda do acervo de linguística indígena que funcionava no terceiro andar do museu. “Todas as memórias de linguísticas indígenas estão sendo torradas agora. Estamos vendo que não tem água. Não se apaga fogo empurrando as pessoas. Não adianta nos afastarem”, indignou-se.

O museu foi fundado por D. João VI em 1818 e possuía cerca de 20 milhões de peças. O palácio histórico, tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), foi residência da família real brasileira. O museu completou o bicentenário este ano e é ligado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) com perfil acadêmico e científico. Especializado em história natural, é o mais antigo centro de ciência do Brasil e o maior museu desse tipo na América Latina.

Bisneto da Princesa Isabel, Francisco de Orleans e Bragança definiu o incêndio como uma perda “incalculável”. “Que tristeza, perdas incalculáveis. Boa parte da história do Brasil foi embora”, lamentou.

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O Museu Nacional na Quinta da Boa Vista, erguido em 1808, numa imagem do início do século XX (Foto: Reprodução)

O presidente da associação de moradores de São Cristóvão, Olavo Schrade, disse que a associação tinha muito envolvimento com o museu e sabia de indícios de que isso poderia acontecer. “É uma tragédia anunciada”, lamentou.

Nos últimos anos, o museu enfrentou dificuldades com a falta de investimentos e chegou a ficar fechado em determinados períodos. O vice-diretor da instituição, Luiz Fernando Dias Duarte, classificou o incêndio como um “descaso” de vários governos. Segundo ele, há anos a instituição tenta verba para uma reestruturação. “Passamos por uma dificuldade imensa para a obtenção desses recursos. Agora todo mundo se coloca solidário. Nunca tivemos um apoio eficiente e urgente para esse projeto de adequação do palácio.”

Duarte lembrou da “destruição das carreiras de cerca de 90 pesquisadores que dedicavam a sua vida profissional dentro daquele espaço”. “Todo o arquivo histórico, que estava armazenado em um ponto intermediário do prédio, foi destruído. São 200 anos de história que se foram”.

Em nota, o presidente Michel Temer lamentou a perda incalculável para o Brasil. “Hoje é um dia trágico para a museologia de nosso país, um dia triste para todos os brasileiros”. Em junho, foi assinado um contrato de patrocínio para o museu com o BNDES, no valor de R$ 21,7 milhões. O investimento previa a revitalização do prédio, seu acervo e espaços de exposição, e um plano de prevenção de incêndios.

O Ministério da Educação (MEC) disse que “não medirá esforços para auxiliar” a UFRJ “no que for necessário para a recuperação desse nosso patrimônio histórico”.

A presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Kátia Bogéa, lamentou as perdas e alertou: “depois dessa tragédia, espero que tenham olhar diferenciado para a cultura”.



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