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VLT em meio à polêmica e à história

Para especialistas, obras do veículo leve sobre trilhos comprometem os estudos em sítio arqueológico do século XVIII

Jornal do Brasil ROGÉRIO DAFLON, rogerio.daflon@jb.com.br

No dia 3 de junho, no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), houve reunião com representantes do próprio Iphan, do Instituto Rio Patrimônio da Humanidade (IRPH) e da Companhia de Desenvolvimento Urbano da Região do Porto (Cdurp). Motivo: uma importante descoberta arqueológica nas proximidades das obras para a passagem Veículo Leve sobre Trilhos (VLT). Estudos mostram que, naquela área, há um cemitério do século XVIII e muita controvérsia. De um lado, os especialistas que dizem que ali foi um cemitério de negros escravizados. Do outro, os que afirmam que, como ali são terrenos contíguos a Igreja de Santa Rita, trata-se de um cemitério associado à Irmandade de Santa Rita, a maioria da então classe média branca.

Mas os especialistas ouvidos pelo JORNAL DO BRASIL têm uma opinião concordante: as obras do VLT devem parar, já que no lugar há informações históricas importantíssimas para entender a cidade ao longo dos séculos. O Iphan, contudo, decidiu liberar a continuidade das obras e já deu o seu ok à Cdurp, que administra a intervenção.

Macaque in the trees
Cemitério da igreja de Santa Inês é o centro da polêmica entre especialistas e a Cdurp (Foto: Fernando Rodrigues/Divulgação Porto Maravilha)

De acordo com a assessoria de imprensa do Iphan, estudos arqueológicos feitos nos últimos dois meses atestaram que o lugar específico da passagem dos trilhos do VLT na Avenida Marechal Floriano foi escavado, e ali não foram encontrados ossos humanos. Há suspeitas, acrescentou a assessoria, de que estejam sob prédios, inclusive sob uma agência do Banco Bradesco.

Coordenador da bem-sucedida candidatura do Cais do Valongo a Patrimônio Mundial pela Unesco, o antropólogo Milton Guran se posiciona radicalmente contra a continuação da obra do VLT. Em sua argumentação, Guran usa como exemplo o African Burial Ground National Monument. “Em 1991, uma construtora estava elevando dois prédios em Nova York. Ergueu o primeiro e, ao começar o segundo, um operário se deparou com uma ossada. A cidade parou para rediscutir sua história. A bancada afrodescendente no Congresso americano conseguiu que a obra fosse paralisada e sequer foi erigido o segundo edifício. Centenas de corpos de pessoas escravizadas foram encontrados sob aquele solo da cidade”, lembra o antropólogo.

Guran ilustrou o caso norte-americano para defender que as obras do VLT na Rua Marechal Floriano sejam interrompidas. E faz críticas à Cdurp. “A Cdurp quer atropelar a história. Parar a obra seria ter um mínimo de respeito a algo historicamente tão importante”, diz Guran, sustentando que ali há um cemitério de pessoas escravizadas.

Autor do livro “Em costas negras” (Editora Unesp), o historiador Manolo Florentino não crê que ali foram enterradas pessoas escravizadas. Para ele, naquela região há um cemitério de pessoas pertencentes à irmandade da Igreja de Santa Rita. Ocorre que Florentino considera que, independentemente da origem das ossadas que vão ser encontradas, as obras têm de parar. “Num cemitério histórico, pela análise das ossadas, pode-se averiguar as doenças da época, a maneira como se sepultava, as vestimentas, enfim, uma série de informações importantes à história de uma cidade. Não há sentido em continuar obras numa área com um sítio arqueológico tão importante como o Cemitério de Santa Rita”, afirmou Manolo Florentino.

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Escavações têm sido feito na Avenida Marechal Floriano e apontam para a existência de pessoas enterradas no século XVIII (Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil )

A assessoria de imprensa da Cdurp confirmou que a obra vai continuar. E enviou uma nota sobre o assunto: “A Companhia de Desenvolvimento Urbano da Região do Porto do Rio de Janeiro (Cdurp) esclarece que o trabalho de arqueologia nas obras de implantação da Linha 3 do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) é coordenado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Em sua última fase de implantação na Avenida Marechal Floriano, o trecho passa por pesquisa arqueológica como determina a legislação para melhor compreender o sítio arqueológico. A expectativa da Prefeitura do Rio é a de que as obras da Linha 3 sejam concluídas até o fim do ano, sempre respeitando os prazos da pesquisa arqueológica”.

Ou seja, diz que respeita os prazos da pesquisa, mas, ao mesmo tempo, anuncia que a intervenção termina em dezembro. O que não vai acabar, pelo visto, é a celeuma em torno da questão.



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