Crítica Teatro: 'Tanto por fazer'

Cotação: ° (Ruim)

Quando a dramaturgia escrita por mulheres no Brasil começou a ser discutida pela crítica jornalística como uma produção de caráter próprio, que poderia trazer ao público questionamentos específicos, relacionados a uma determinada forma de analisar temas caros ao universo dito feminino, alguns resenhistas não puderam deixar de ver em parte desses textos, ainda que de maneira preconceituosa, um prolongamento superficial dos debates propostos pelas revistas dirigidas a leitoras, que explorariam um nicho de mercado próximo ao da auto-ajuda. Obviamente, tal visão não esconde uma postura um tanto misógina a respeito do tipo de matéria que mereceria ser objeto de escrita dramatúrgica. Por outro lado, também reflete um descontentamento com os resultados alcançados por algumas peças que buscam abordar questões caras à boa parte das mulheres contemporâneas, sem problematizá-las de forma madura.

'Tanto por fazer', espetáculo escrito por Tessy Callado e Rosário Nascimento e Silva, dirigido por Carlos Cardoso, com Tessy Callado e Simone Franco no elenco, é uma dessas montagens que procuram explorar o universo da mulher madura nas suas relações com ex-maridos, namorados, filhos, pais, fazendo um balanço das conquistas realizadas pelas personagens nos campos afetivo e profissional. Como se pode perceber, um tipo de proposta ambiciosa, que, em geral, para ser bem realizada, precisaria de um texto estruturado com maestria,capaz de propor conflitos a partir de uma análise mais aprofundada das situações, que fugisse ao lugar comum do aproveitamento da comicidade mais ligeira sugerida pelo inusitado das circunstâncias. O que acontece em 'Tanto por fazer' é justamente o oposto disso: o público é confrontado com uma dramaturgia que não consegue amarrar uma ação interior ou exterior, que se constrói a partir de uma série de acontecimentos passados narrados como história, cuja projeção no presente é mínima e, portanto, pouco problematizada. Desse modo, as personagens ficam trocando diálogos que reavivam memórias sem lograr, contudo, estabelecer situações dramáticas reais a partir delas, pois não se criam conflitos críveis nem perfis psicológicos mais desenhados, mesmo com a ação se desenvolvendo num contexto pragmático-ilusionista.

O trabalho das atrizes resulta também, por sua vez, uma contribuição bastante humilde ao espetáculo como um todo. Simone Franco tem má dicção e ainda que dê um tom correto a Eva não consegue evitar que seu trabalho fique prejudicado pela dificuldade em articular bem o texto. Tessy Callado, como Maria, mostra melhor domínio técnico, mas não tem muito a fazer com o material que lhe cabe. A direção de Carlos Cardoso busca apenas escrever no espaço cênico do SESC – Casa da Gávea as pequenas possibilidades sugeridas pelo tecido dramático.

'Tanto por fazer', de certa maneira, parece espelhar-se na dramaturgia de Maria Adelaide Amaral dos anos de 1990, principalmente em Querida mamãe e Inseparáveis, no entanto, não alcança os mesmos resultados positivos.