Crítica: 'Transeunte'

Talento que sobrevive ao tempo

Em sua estreia na ficção, Eryk Rocha aborda uma fase determinante na vida de Expedito, homem solitário na faixa dos 60 anos que transita pelo Centro do Rio de Janeiro, onde mora, quase completamente destituído de vínculos afetivos. De determinado momento em diante, o personagem retoma o elo com o mundo.

A via-crúcis desolada de Expedito, na primeira metade da projeção, é retratada com perfeição. Mas o instante de transição, de abertura para a construção de novas relações, soa um tanto abrupto. E Eryk Rocha se alonga no registro da jornada solar do personagem, ameaçando encerrar o filme várias vezes antes do término propriamente dito. Transeunte é, nesse sentido, prejudicado por uma divisão desigual do tempo.

Apesar das restrições, não faltam qualidades ao filme do diretor dos bons documentários Rocha que voa e Pachamama. Exemplos: a excelente fotografia (de Miguel Vassy), em preto e branco, e a apuradíssima partitura sonora (de Edson Secco). Encarregado de sustentar as cerca de duas horas de projeção, o ator Fernando Bezerra merece elogios incondicionais. Foi premiado com justiça no Festival de Brasília, juntamente com o quesito som.

Cotação: **