Crítica: 'Filhos de João, o admirável mundo novo baiano'

Lançado no Festival de Brasília de 2009, onde ganhou o prêmio especial do júri e o voto do júri popular, Filhos de João, o admirável mundo novo baiano, estréia do artista plástico Henrique Dantas na direção, somente agora chega ao circuito.

A realização do projeto era um sonho antigo do diretor que, desde pequeno, habituou-se a escutar com o pai as músicas interpretadas por Moraes Moreira, Baby Consuelo, Pepeu Gomes e Paulinho Boca de Cantor.

Anos depois, essa paixão o levou a fazer o filme que narra a história do grupo Novos Baianos, que se concentra num dos períodos mais efervescentes da produção musical brasileira, o final da década de 60, quando o grupo eclodiu.

Foi nessa época que o cantor, compositor e um dos criadores da bossa nova, João Gilberto, recém-chegado dos Estados Unidos, começou a conviver com os Novos Baianos, tornando-se uma espécie de guru do grupo e influindo na transformação daqueles jovens irreverentes.

Precedido por um árduo trabalho de pesquisa, que consumiu 11 anos, o documentário revela o universo estético e filosófico do grupo. Através de depoimentos dos integrantes e de personalidades musicais, trechos de um documentário feito para a tevê alemã e imagens de arquivo, a história do grupo é mostrada desde sua criação até seu término.

Dantas é delicado ao falar do fim do grupo, que começa a acontecer com a saída de Moraes Moreira. Sabiamente, o diretor não coloca o foco nas razões do fim da banda, mas sim no espelho de uma época. É como se tacitamente ficasse expresso que o grupo acabou quando ela passou.

Sensível e nostálgico, mais que o retrato de um grupo musical, o filme é a evocação de uma época, que vai do país poético de João Gilberto ao repressor do período da ditadura militar.

O documentário seria inicialmente um curta-metragem. Mas um valor recebido de um edital antigo e a certeza de que era um filme importante para a cultura baiana e brasileira, levou Dantas a optar por um longa.

Além de  um importante resgate cultural, Filhos de João, o admirável mundo novo baiano é, acima de tudo, o retrato de uma geração.

A lamentar apenas a ausência de depoimentos de Baby Consuelo (que, posteriormente, nos anos 90, adotou o nome de Baby do Brasil), a representante feminina do grupo. De forma sutil, nos créditos finais, o letreiro avisa que ela não autorizou o uso de suas imagens no filme.

Filhos de João, o admirável mundo novo baiano, ganhou o prêmio na edição brasileira do In-edit, Festival Internacional do Documentário Musical, realizado por voto popular, e vai representar o cinema brasileiro na versão internacional do festival que acontece em Barcelona, entre os dias 28 de outubro e 7 de novembro.  Cotação:  *** (Ótimo)