Crítica - 'A falta que nos move'

A diretora Christiane Jatahy potencializa determinadas tensões em A falta que nos move, transposição cinematográfica de sua montagem A falta que nos move... ou todas as histórias são ficção, principalmente no que diz respeito ao contraponto entre o apagamento da representação no registro dos atores e a evidenciação do processo de trabalho.

A partir de uma situação usual (amigos se reúnem para um jantar numa casa/plano suspenso e os ânimos se acirram enquanto esperam um convidado misterioso, um Godot), Jatahy procura fazer com que o elenco transmita ao espectador a sensação de improviso, de falas descortinadas no exato momento da filmagem ou até mesmo no instante em que o público assiste ao filme. 

Os atores usam seus próprios nomes e discutem sobre a revelação de fatos de suas vidas pessoais (mas quem disse que são referentes às suas vidas?).

Ao mesmo tempo, Jatahy denuncia que nada acontece ao acaso. O elenco segue um roteiro previamente estipulado (que aparece sendo consultando, em alguns momentos) e recebe  instruções da diretora via celular.

Christiane Jatahy poderia ter suprimido essas passagens, de modo a fazer com que a plateia saísse do cinema com a impressão de que testemunhou um acontecimento ao vivo. Preferiu, porém, valorizar o contraste entre atores que não parecem interpretar ou seguir uma estrutura planejada e a exposição da artificialidade do processo de construção do trabalho. A diretora discute a fronteira entre verdade e encenação – sintetizada na sequência, ao final, em que os atores choram em close, com acompanhamento musical – e mostra que ambas não são excludentes, uma vez que qualquer trabalho artístico é construído (e, portanto, artificial).

A cineasta comprova também que não importa muito se as histórias reveladas dizem ou não respeito às vidas dos atores, na medida em que o ato de contar um determinado fato, de presentificá-lo, sempre inclui acréscimos e subtrações em relação ao ocorrido, resultando, assim, numa ficcionalização. Em todo caso, não assumir uma história narrada em primeira pessoa como própria pode evidenciar certa dose de pudor do ator, de dificuldade de levar a cabo uma exposição frontal. Não se trata exatamente de uma restrição, e sim de uma possibilidade de colocação num projeto norteado pela inquietude. Cotação: *** (Ótimo)