Paternidade da transposição do São Francisco vira disputa entre presidenciáveis

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Enquanto o governo federal tenta viabilizar o Auxílio Brasil e construir uma boa vitrine social para as eleições de 2022, na tentativa de minimizar a relação entre o Bolsa Família e o PT, outro projeto social que perpassa gestões entra para a “disputa de paternidade” da corrida presidencial: a transposição do Rio São Francisco.

Cientes do ativo político representado pela entrega de água a regiões secas do Nordeste, os líderes nas pesquisas de intenção de voto para o Palácio do Planalto - o presidente Jair Bolsonaro, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ex-ministro Ciro Gomes - tentam manter as digitais na megaobra de infraestrutura.

Com a popularidade afetada pela crise econômica e pela pandemia de covid-19, Bolsonaro já colocou a máquina pública para trabalhar em prol da transposição. Em meados de outubro, criou a Jornada das Águas, roteiro de dez dias de inaugurações e anúncios de obras envolvendo mananciais e cursos d’água, principalmente na bacia do Rio São Francisco. A estratégia do governo é fracionar os lançamentos e realizar o máximo de entregas até as eleições - para ganhar o selo de garantidor da transposição tirada do papel por Lula e Ciro, que foi ministro da Integração Nacional do petista entre 2003 e 2006.

O presidente participou do tour de inaugurações, que passou por todos os Estados do Nordeste. Levou consigo o ministro do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho, pré-candidato a senador do Rio Grande do Norte, e o ministro da Cidadania, João Roma, pré-candidato a governador da Bahia. “Estamos garantindo que o Velho Chico vai continuar com água suficiente para a transposição e atender nossos irmãos nordestinos”, afirmou Bolsonaro em São Roque de Minas, no sudoeste de Minas Gerais, nascente do Rio.

O Ministério do Desenvolvimento Regional afirma que faltam apenas “obras e serviços auxiliares e complementares” para a conclusão da transposição do São Francisco. “Essas obras foram contratadas nas gestões anteriores, mas só receberam os recursos necessários no atual governo, cujo compromisso é justamente assegurar o acesso à água da população da região semiárida do Nordeste”, diz a pasta, em nota enviada à reportagem. “As obras do Projeto São Francisco passaram por diversas paralisações, em decorrência da ineficiência do processo de planejamento das gestões anteriores e denúncias de corrupção, que geraram atrasos e aumento no custo”, defende o Ministério.

Do outro lado da polarização, o PT critica a postura do Executivo de encampar a conclusão da mudança de curso do São Francisco. Ao Broadcast Político, o deputado federal José Guimarães (CE), vice-presidente do PT, diz que Bolsonaro “faz festa com o chapéu alheio”. “Inaugurar obra dos outros é fácil. Essa obra tem o DNA do Lula”, afirma. Guimarães descarta uma queda de braço pela paternidade da transposição na corrida eleitoral. “Não tem disputa, não vai para o colo do Ciro ou do Bolsonaro. Essa obra é do Lula, todo mundo sabe. Temer fez 8% e Bolsonaro só 2%, ele não tem que se meter”.

Ciro Gomes, que na semana passada suspendeu sua pré-candidatura à presidência após parte da bancada do PDT na Câmara votar a favor da PEC dos Precatórios, também ressalta seu papel à frente da transposição. “Tenho muito orgulho de ter concebido, projetado, enfrentado várias tentativas de desistência, licenciado, com extraordinária ajuda de Marina Silva, e iniciado a obra com a qual milhares de brasileiros, nordestinos, terão garantido o direito de acesso à água”, afirmou o presidenciável à reportagem, por meio de nota.

Em mais um sinal de que a transposição está no radar de 2022, Ciro também usa o assunto para atirar em Bolsonaro e no PT, seu alvo preferencial em recentes movimentos políticos. “Bolsonaro está se aproveitando de um fato: os governos Lula, Dilma e Temer atrasaram o cronograma de entrega das obras por diversas razões, inclusive corrupção. Por exemplo, Lula colocou no Ministério da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima, aquele preso com as malas com 51 milhões de reais. Não tinha como dar certo”, diz o ex-ministro. “Eles fizeram 97% da obra e Bolsonaro apenas concluiu os últimos 3%. Mas é preciso que se diga: se Bolsonaro demorou um ano e meio para fazer 3%, ele levaria mais de 50 anos para realizar ela toda”.

Procurado, o líder do governo Bolsonaro no Senado, Fernando Bezerra Coelho (MDB-PE) - que também foi ministro da Integração Nacional de Dilma e, assim, poderia analisar o andamento da transposição ao longo dos governos - não quis conversar com a reportagem sobre o assunto. (com Eduardo Gayer/Agência Estado)

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