POLÍTICA

Cláudio Castro, aliado de Bolsonaro no Rio, aposta nos bilhões da venda da Cedae para se reeleger

Governador terá chance de se aproximar de prefeitos e construir aliança de centro-direita na eleição do ano que vem

Por Jornal do Brasil
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Publicado em 24/05/2021 às 07:45

Alterado em 24/05/2021 às 07:46

Claudio Castro Foto: Eliane Carvalho/Governo do RJ

A um ano e meio do pleito de 2022, a candidatura à reeleição do governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PSC), aliado do presidente Jair Bolsonaro, ganhou um forte empurrão: os bilhões obtidos com a privatização da Cedae (Companhia Estadual de Águas e Esgotos).

Se antes o governo enfrentava importantes restrições orçamentárias, agora, com a venda da estatal, Castro poderá ampliar os investimentos nos municípios e se aproximar dos prefeitos, abrindo caminho para o seu objetivo de formar uma ampla aliança de centro-direita. Para isso, ele tem conversado até mesmo com partidos e lideranças que não apoiarão a reeleição de Bolsonaro, fiador de sua campanha.

Em leilão que contou com a presença do presidente e do ministro da Economia, Paulo Guedes, o estado do Rio arrecadou R$ 22,7 bilhões com a concessão para serviços de saneamento no estado. Em alguns lotes, a venda superou em até 187% o valor mínimo esperado.

Aliados acreditam que os recursos poderão auxiliar Castro a enfrentar um de seus maiores desafios –firmar sua identidade para além de Bolsonaro, porém sem se descolar do presidente. Ele também precisa superar uma série de fatos que arranharam a sua imagem nos últimos meses, como ter gerado aglomeração ao festejar seu aniversário em meio à pandemia.

Para interlocutores, o governador é uma folha em branco e, com os valores da Cedae, terá a oportunidade de deixar sua marca, por meio de grandes investimentos e projetos.

Para ter chances de vitória em 2022, ele deverá provar que é mais do que um produto do bolsonarismo, ainda que patrocinado pelo clã presidencial. Aliados avaliam que também é importante que Castro evite a pecha de negacionista.

Um dos investimentos previstos já foi sinalizado publicamente pelo governador. Após a operação mais letal da história do Rio, que deixou ao menos 28 mortos na favela do Jacarezinho, o governador afirmou que irá retomar a ocupação das comunidades no segundo semestre, ofertando aos moradores serviços que não foram entregues pelas falidas UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora).

Ciente da importância dos recursos da concessão da Cedae para dar fôlego a sua candidatura, Castro entrou em conflito até mesmo com o presidente da Assembleia Legislativa do Rio, o deputado estadual André Ceciliano (PT), com quem mantém boas relações.

O governador ignorou decisão da Casa, que votou a favor da suspensão do leilão, e decretou em edição extra do Diário Oficial que a venda estava mantida. Posteriormente, a Justiça do Rio derrubou a determinação da Assembleia.

No plenário, Ceciliano chegou a acusar o governo de ameaçar os deputados para que não suspendessem o leilão. “Tenho recebido telefonemas, inclusive com ameaças pessoais. Hoje já recebi vários deputados reclamando que o próprio governador tem ligado fazendo ameaças”, disse o petista.

Outros prefeitos também pressionaram por porcentagens maiores da venda da estatal. Cotado para a chapa de Castro, o prefeito de Duque de Caxias, Washington Reis (MDB), afirma que brigou para que os municípios tivessem direito a 50% do ágio obtido no leilão, segundo o número de habitantes de cada cidade.

Aliado do governador, Reis diz acreditar que os recursos podem selar sua vitória no primeiro turno. Para ele, Castro vai se capitalizar politicamente e conquistar apoios no interior.

“Muda o panorama político. O governador vai ter que gastar muito até as eleições. Vai se transformar numa força política”, afirma.

Outro nome aventado para a vice de Castro, o prefeito de Nova Iguaçu, Rogério Lisboa (PP), diz que irá defender que parte dos recursos seja utilizada para a criação de um metrô na Baixada Fluminense. Ele concorda que o governador tem agora um instrumento para se aproximar dos municípios.

“[Castro precisa] acertar no investimento, fazer um bom planejamento e executar. Se o estado vem fazer investimento no seu município, isso aproxima. É muito bem visto, agrada as pessoas. Ele tem hoje esse trunfo na mão. Isso é republicano”, afirma.

Para se tornar um candidato competitivo, o aliado de Bolsonaro também precisará descolar sua imagem do ex-governador Wilson Witzel (PSC). Denunciado por corrupção na gestão da qual Castro foi vice, o ex-juiz sofreu um impeachment em abril.

Delatores também implicaram o atual governador diretamente no esquema. O ex-secretário de Saúde Edmar Santos, pivô da investigação contra Witzel, afirmou em colaboração que Castro participou da organização de um esquema criminoso para direcionar recursos da saúde a determinados municípios para garantir apoio de deputados estaduais à gestão.

O governador é alvo ainda da delação do empresário Bruno Selem, numa investigação sobre pagamentos de propina em projetos sociais para atendimento médico gratuito em unidades móveis. Há vídeos de Castro com uma mochila que, segundo Selem, levava R$ 100 mil em vantagens indevidas.

Para se desvincular de Witzel, o governador decidiu deixar o PSC, que ainda abriga o ex-juiz e outros nomes implicados no suposto esquema de corrupção, como o Pastor Everaldo, preso e afastado da presidência nacional do partido.

Nos últimos dias, Castro escolheu o PL como seu destino —a filiação deverá ocorrer oficialmente na próxima semana, embora a transição já esteja acertada.

O governador chegou a conversar com legendas como o DEM e o PSD, mas se decidiu pelo PL, entre outros motivos, devido à grande capilaridade que o partido tem no interior do Rio. Esse ativo agradou Castro, que deseja criar laços com lideranças locais para estabelecer uma ampla rede de apoio para sua candidatura. Nas últimas eleições, o PL foi a segunda sigla que mais elegeu prefeitos no estado.

Castro também foi atraído pela lealdade do partido ao presidente, fiador de sua candidatura. Além disso, o PL tem o sexto maior tempo de propaganda eleitoral na televisão.

Desde 2018, a bancada na Câmara de Deputados cresceu de 33 para 41, sendo hoje a terceira legenda com maior número de parlamentares, atrás apenas do PSL e do PT. O PL conta, ainda, com dois dos três senadores eleitos pelo Rio de Janeiro.

Segundo o presidente do partido no estado, deputado federal Altineu Côrtes, o presidente nacional da legenda, Valdemar Costa Neto, se comprometeu a colocar a estrutura no Congresso à disposição da candidatura de Castro, que será o único governador filiado à sigla.

Côrtes afirma que a intenção é construir uma grande aliança para a disputa à reeleição, reunindo cerca de 12 partidos de centro.

A filiação de Castro ao PL também é uma forma de inviabilizar uma eventual candidatura de Paes ao governo, ainda que o prefeito sustente que não tem tal pretensão e mantenha conversas para apoiar candidatos não alinhados a Bolsonaro.

A leitura é que Paes hesitaria em se desincompatibilizar do cargo para disputar o estado, já que precisaria deixar a cidade nas mãos de seu vice, Nilton Caldeira (PL), um correligionário de Castro.(Folhapress)