Datafolha: Expectativa de mais corrupção sobe a 67% e bate recorde sob Bolsonaro

Piora em pesquisa é apurada após aliança de presidente com centrão, revelações sobre 'rachadinhas' e mansão de Flávio

AP Photo / Silvia Izquierdo
Credit...AP Photo / Silvia Izquierdo

A expectativa de que haja mais corrupção no Brasil subiu ao maior nível desde que Jair Bolsonaro (sem partido) assumiu a Presidência, em 2019: 67% dos brasileiros dizem esperar que haverá mais malfeitos daqui para a frente.

É o que aponta pesquisa feita pelo Datafolha em 15 e 16 de março, na qual foram ouvidas por telefone 2.023 pessoas. A margem de erro é de dois pontos para mais ou menos.

Na rodada anterior em que essa pergunta foi feita, em dezembro passado, 55% achavam que a corrupção iria aumentar, nível semelhante à pesquisa de agosto —que havia indicado a mudança de patamar dessa percepção, estável em torno de 40% desde o início do governo.

De dezembro para cá, caiu de 14% para 8% o índice de pessoas que acham que a corrupção vai diminuir, e oscilou de 27% para 23%, queda dentro do limite da margem de erro, o número daqueles que acham que o problema seguirá como está.

Os dados acompanham a consolidação da aliança entre Bolsonaro e o centrão, além da exposição no noticiário de mais detalhes de práticas suspeitas associadas à família do presidente e o episódio da compra de uma mansão de R$ 6 milhões por seu filho Flávio, senador pelo Republicanos-RJ.

Ao mesmo tempo, a Justiça alterna notícias más para a família, como a sobrevida à investigação das "rachadinhas", e boas, como a soltura concedida ao ex-assessor Fabrício Queiroz.

A aproximação do antes Grande Satã da corrupção para o bolsonarismo, o centrão, foi iniciada no segundo semestre de 2020 e consumada com o apoio à eleição do prócer do grupo de partidos na Câmara, Arthur Lira (PP-AL), à presidência da Casa em fevereiro.

Como as cobranças acerca da política de combate à pandemia mostram, é uma aliança bastante instável, mas garantiu numericamente apoio a Bolsonaro —principalmente contra ameaças de abertura de processo de impeachment, que legalmente começam na Câmara.

O combate à corrupção era uma pedra basilar da campanha de Bolsonaro em 2018, que buscou associar-se à então popular Operação Lava Jato. Sergio Moro, o juiz-símbolo da ação anticorrupção, acabou virando ministro da Justiça.

Saiu no começo de 2020, apontando interferência ilegal de Bolsonaro na Polícia Federal. Com efeito, ao longo do ano passado o presidente minou a Lava Jato apontando Augusto Aras como procurador-geral da República.

Ao mesmo tempo, houve o desgaste pela associação de Moro com o governo e as revelações de conversas de integrantes da Lava Jato, que levaram ao julgamento de suspeição do ex-juiz no caso da condenação de Luiz Inácio Lula da Silva e geraram o clima para a restauração dos direitos políticos do ex-presidente.

Aras, por sua vez, enterrou a Lava Jato de vez, encerrando a sua força-tarefa.

Bolsonaro, pressionado pelas políticas erráticas de combate à pandemia e pelo ensaio de crise institucional do primeiro semestre de 2020, quando apoiou atos golpistas contra outros Poderes, aproximou-se do centrão e de siglas como o PSD.

Isso foi catalisado pela prisão de Queiroz, em junho. Cargos foram distribuídos, e um ministério, recriado. Isso assentou o caminho para a eleição de Lira, um aliado que abriu a principal comissão da Câmara, a de Constituição e Justiça, para uma bolsonarista radical.

O pessimismo aferido pelo Datafolha é pior entre mulheres (74%) e os mais pobres (73%). São grupos importantes em termos estatísticos, somando respectivamente 52% e 53% da amostra do Datafolha.

A expectativa é menos pior entre os mais ricos (51%), mas isso não se transmuta em otimismo: cresce ali a ideia de que tudo ficará como está, em 37%. É um grupo influente, mas de apenas 4% do universo dos pesquisados.

Há homogeneidade na avaliação pelo país, uma curiosidade dado que em outros itens pesquisados na mais recente rodada do Datafolha houve um acirramento de divisões regionais.

Nela, a rejeição a Bolsonaro cresceu para 44%, enquanto a aprovação segue nos 30% a que ele se acostumou desde que assumiu como piso de popularidade.

No grupo que acha o presidente ótimo ou bom, 53% acham que haverá mais corrupção, e 17%, que ela diminuirá. É um resultado melhor que o global, mas longe de níveis mais confortáveis registrados anteriormente. (Folhapress)