Fim do auxílio e caos na saúde rompem inércia da opinião pública com Bolsonaro, diz Datafolha

Antes, tensão entre a injeção de recursos na economia e curva da Covid-19 se anulava em espécie de cabo de guerra

Reuters/Ueslei Marcelino - 5/5/20
Credit...Reuters/Ueslei Marcelino - 5/5/20

O fim do auxílio emergencial pago pelo governo ao longo de 2020, combinado ao descontrole da pandemia do novo coronavírus no início deste ano, despertou a opinião pública brasileira do estado de inércia em que se apresentava até o último dezembro.

Há pouco mais de um mês, a estabilidade nas taxas de aprovação do governo Jair Bolsonaro em suas melhores marcas era provocada pela tensão entre duas forças que se anulavam —uma espécie de cabo de guerra entre a injeção de recursos na economia, especialmente pelo pagamento do benefício federal, e a curva de contaminação e mortes da Covid-19, que na ocasião já indicava tendência crescente.

Agora, com a interrupção do benefício e o recrudescimento da pandemia, a reprovação ao presidente aumenta oito pontos percentuais, enquanto a avaliação positiva cai seis. Dos presidentes eleitos pelo voto direto e em primeiro mandato, Bolsonaro continua com desempenho superior apenas ao de Fernando Collor, meses antes de seu impeachment.

O peso da variável econômica na piora da popularidade presidencial fica evidente quando se observa o cruzamento dos dados. Em pouco mais de 40 dias, com o fim do auxílio, a reprovação a Bolsonaro cresceu 10 pontos percentuais entre os que recebiam o benefício.

No grupo dos que não solicitaram o dinheiro, também houve piora nos índices de avaliação do governo, mas em menor proporção. A diferença entre os dois estratos na avaliação negativa de Bolsonaro cai pela metade e praticamente deixa de existir na aprovação.

O fenômeno fica ainda mais claro ao se verificar resultados por renda e sexo. Entre os que recebem até dois salários mínimos, a popularidade de Bolsonaro, que chegou a ascender 15 pontos percentuais durante o pagamento do auxílio, cai agora oito pontos em pouco mais de um mês.

A reprovação ao presidente, que nesse estrato chegou a cair 17 pontos percentuais no segundo semestre de 2020, subiu agora 13 pontos.

Entre as mulheres, segmento que mais pediu e recebeu o benefício, Bolsonaro tinha conseguido diminuir sua histórica rejeição em 12 pontos percentuais de junho a dezembro. Agora, ela volta a crescer 10 pontos.

Combinando-se as duas variáveis, o estrato feminino de menor renda é onde se nota a maior queda de popularidade do presidente no último mês.

O segmento masculino volta a ser, com larga vantagem, o fiador majoritário do governo. Entre os que consideram Bolsonaro ótimo ou bom, 57% são homens. Entre os que o classificam como ruim ou péssimo, a proporção se inverte —59% são do sexo feminino.

A mesma tendência se verifica no Nordeste, região onde o auxílio fez a reprovação a Bolsonaro cair de 52% para 34% no segundo semestre do ano passado. Agora, ela volta a subir para 43%.

Com recursos reduzidos na economia, a força da segunda onda da pandemia não encontra resistência na outra ponta da corda desse cabo de guerra. Apesar de a maior parte dos brasileiros não considerar o presidente como principal responsável pelas mortes provocadas pela doença, há também alta correlação da crescente impopularidade do seu governo com o combate à Covid-19.

Nesse quesito, seu desempenho piorou para patamares próximos aos de momentos críticos da pandemia entre junho e agosto do ano passado, quando o número de mortes diárias batia recordes.

A repercussão do colapso do sistema de saúde em Manaus se reflete no aumento das taxas de ruim ou péssimo que Bolsonaro apresenta na gestão da crise entre os que vivem nas regiões Norte e Centro-Oeste.

Quanto à atuação do Ministério da Saúde, esse crescimento também é significativo na população local, diferente da estabilidade verificada no total da amostra.

A percepção de descontrole junto à população, reforçada pelo imbróglio na aquisição de vacinas, deixou o presidente isolado, em posição delicada frente ao governador de São Paulo, João Doria (PSDB), que soube capitalizar politicamente o episódio.

Mas, com tantos resultados negativos, o apoio ao impeachment ou renúncia de Bolsonaro só não alcança a maioria por conta dos que o julgam um presidente regular.

Forçados a tomar partido em escalas dicotômicas (a favor ou contra), a maior parte do estrato se posiciona contrária ao impedimento ou renúncia. É um segmento com perfil sociodemográfico próximo à média da população, não tão fiel ao presidente, mas onde metade ainda acredita em sua capacidade de governar o país.

O sucesso ou fracasso da campanha de imunização pode ser determinante tanto para reforçar essa tendência como para invertê-la —esse estrato, mais do que os polarizados, apostam na vacina como vetor para a retomada econômica, estratégia que o governo minou ao promover o cabo de guerra entre as duas esferas.(com Folhapress)

Crise derruba popularidade de Bolsonaro

Em meio ao agravamento da crise de gestão da pandemia da Covid-19, a reprovação ao governo de Jair Bolsonaro inverteu a curva e voltou a superar sua aprovação.

Segundo o Datafolha, o presidente é avaliado como ruim ou péssimo por 40% da população, ante 32% que assim o consideravam na rodada anterior da pesquisa, no começo de dezembro.

Já quem acha o presidente ótimo ou bom passou de 37% para 31% no novo levantamento, feito nos dias 20 e 21 de janeiro. É a maior queda nominal de aprovação de Bolsonaro desde o começo de seu governo.

Avaliam Bolsonaro regular 26%, contra 29% anteriormente —oscilação dentro da margem de erro, que é de dois pontos percentuais para mais ou para menos.

O instituto ouviu, por telefone devido às restrições sanitárias da pandemia, 2.030 pessoas em todo o Brasil.

Se no levantamento de 8 e 10 de dezembro Bolsonaro mantinha o melhor nível de avaliação até aqui de seu mandato, de 37%, agora ele se aproxima do seu pior retrato de popularidade, registrado em junho de 2020, quando 44% o rejeitavam, ante 32% que o aprovavam.

A melhoria do segundo semestre —cortesia da acomodação após a turbulência institucional, do auxílio emergencial aos mais carentes na crise e de políticas para o Nordeste— foi abalada de dezembro para cá.

Concorrem para isso o recrudescimento da pandemia, que viu subir números de casos e mortes no país todo, a aguda crise da falta de oxigênio em Manaus , as sucessivas trapalhadas para tentar começar a vacinação no país e o fim do auxílio em 31 de dezembro.

Com efeito, as pessoas que têm medo de pegar o novo coronavírus estão entre as que mais rejeitam o presidente.

Entre aqueles que têm muito medo de pegar o Sars-CoV-2, a rejeição de Bolsonaro subiu de 41% em dezembro para 51% agora. A aprovação caiu de 27% para 20%.

Entre quem tem um pouco de medo de infectar-se, a rejeição subiu de 30% para 37%, enquanto a aprovação oscilou de 36% para 33%.

No grupo dos que dizem não ter medo, próximos da retórica bolsonarista sobre a pandemia, os dados são estáveis e previsíveis: 21% o rejeitam (eram 18%) e 55% o aprovam (eram 53%).

Bolsonaro segue assim sendo o presidente com pior avaliação para o estágio atual de seu governo, considerando aqui apenas os eleitos para um primeiro mandato depois de 1989.

Em situação pior que ele só Fernando Collor (PRN), que no seu segundo ano de governo em 1992 tinha rejeição de 48%, ante aprovação de 15%. Só que o então presidente já estava acossado pelas denúncias que levaram ao seu processo de impeachment e renúncia no fim daquele ano.

Neste ponto do mandato, se saem melhor Fernando Henrique Cardoso (PSDB, 47% de aprovação e 12% de reprovação), Luiz Inácio Lula da Silva (PT, 45% e 13%) e Dilma Rousseff (PT, 62% e 7%).

A gestão de Bolsonaro na crise atrai diversas críticas. Metade dos brasileiros considera que ele não tem capacidade para governar —o número oscilou de 52% para 50% de dezembro para cá. Já quem o vê capaz também ficou estável, 45% para 46%.

Bolsonaro segue sendo um presidente inconfiável para metade dos brasileiros, segundo o Datafolha. Nunca confiam em sua palavra 41% (eram 37% antes) dos entrevistados, enquanto 38% o fazem às vezes (eram 39%) e 19%, sempre (eram 21%).

Nos cortes geográficos da pesquisa, o impacto potencial do fim do auxílio emergencial e da crise em Manaus se fazem evidentes.

Entre moradores do Nordeste, região com histórico de dependência do assistencialismo federal e antiga fortaleza do petismo, a rejeição ao presidente voltou a subir, passando de 34% para 43%. O maior nível até aqui havia sido registrado em junho de 2020, com 52% de ruim/péssimo.

Nordestinos respondem por 28% da amostra do Datafolha

Já o maior tombo de aprovação do presidente ocorreu no Norte, onde fica Manaus, e no Centro-Oeste, até então um reduto bolsonarista. Seu índice de ótimo e bom caiu de 47% em dezembro para 36% agora. As duas regiões somam 16% da população nesta pesquisa.

No populoso (42% da amostra) Sudeste, Bolsonaro amarga 44% de rejeição, dez pontos a mais do que no Sul (14% da amostra), usualmente uma região mais favorável ao presidente. Ele tem pior avaliação entre pretos (48%) e moradores de regiões metropolitanas (45%).

Bolsonaro é mais rejeitado entre os que ganham mais de 10 salários mínimos (52%), com curso superior (50%), mulheres e jovens de 16 a 24 anos (46%). Os mais ricos e instruídos são os que menos confiam no presidente, e a eles se unem os jovens na pior avaliação de sua capacidade de governar.

O presidente segue com melhor aprovação (37%) entre homens e pessoas de 45 a 59 anos, que também são os que mais confiam no que ele diz. Os mais ricos podem ser os que mais rejeitam o mandatário máximo, mas também são o aprovam mais do que a média: 36%.

No grupo dos evangélicos (27% da população pesquisada), próximo de Bolsonaro, o presidente tem 40% de ótimo ou bom. Já os católicos (52% da amostra) são menos entusiastas, com 28% de aprovação.

Por fim, empresários seguem sendo o grupo profissional mais fiel ao presidente. Entre quem se classifica assim, Bolsonaro tem 51% de aprovação, 35% de "sempre confia" e 58% de crença em sua capacidade.

Já funcionários públicos, um grupo que Bolsonaro tenta agradar na retórica sempre que possível, são os que mais o rejeitam (55%), menos confiam em sua palavra (56% não acreditam nele) e mais o consideram incapaz (65%). (Igor Gielow/Folhapress)