Bolsonaro põe culpa em estados e municípios por desperdício de testes para covid pelo governo federal

REUTERS/Adriano Machado
Credit...REUTERS/Adriano Machado

O presidente Jair Bolsonaro culpou os governos estaduais pelo encalhe de quase 7 milhões de testes para diagnóstico da Covid-19 que estão guardados em um depósito no aeroporto de Guarulhos e vencem até janeiro de 2021.

Os testes do tipo RT-PCR comprados pelo Ministério da Saúde que vencem entre dezembro e janeiro somam 6,86 milhões de unidades. Outros 212,9 mil vencem em fevereiro e 70,8 mil, em março. O estoque supera o que o país aplicou no sistema público de saúde até hoje, que foi de 5 milhões de testes.

Em uma postagem em redes sociais, Bolsonaro foi cobrado por uma apoiadora sobre a notícia do desperdício de ter testes estocados que podem perder a validade.

Macaque in the trees
Trabalhador da saúde realiza teste PCR no aluno Kaique Gabriel da Silva, na Escola Estadual do Reverendo Almir Pereira Bahia, em Taboão da Serra, nos arredores de São Paulo (Foto: Foto: Reuters/Amanda Perobelli)

“Todo o material foi enviado para Estados e municípios. Se algum Estado/município não utilizou deve apresentar seus motivos”, escreveu Bolsonaro.

O próprio Ministério da Saúde desmentiu o presidente. Em nota, admitiu que os testes não foram distribuídos e estão no depósito em Guarulhos. Apesar de não admitir diretamente que os testes estão para vencer, o ministério informa que devem chegar essa semana “estudos de viabilidade estendida” para os testes em estoque, que serão entregues para a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Os estudos poderão permitir que os testes possam ser usados por mais algum tempo, para além do prazo de validade inicial, que é de 8 meses.

“Cabe ressaltar que os testes RT-qPCR são distribuídos de acordo com as demandas dos Estados e que o ministério se mantém à disposição dos entes para dar suporte às ações de monitoramento, diagnóstico, tratamento e acompanhamentos dos casos, além de incentivar as ações de prevenção e assistência precoce nos serviços de saúde do SUS”, informou o ministério.

A pasta diz ainda que já distribuiu 9,3 milhões de testes RT-PCR aos Estados e que 5,04 milhões já foram usados.

Também em nota, o Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) afirma que alertou diversas vezes o Ministério da Saúde sobre a falta de materiais para coletar o material a ser testado, como tubos e swabs, e de insumos para extração do material genético para os exames RT-PCR.

De acordo com os secretários, os insumos para a segunda etapa do teste, a chamada amplificação, estavam de fato disponíveis --são os que estariam armazenados em Guarulhos-- mas sem o restante do material eles não poderiam ser usados.

“Ao longo dos últimos meses, o Conass alertou para o problema. Passamos boa parte da pandemia com dificuldade para aquisição de insumos de coleta. O repasse desse material para Estados só ocorreu a partir de agosto. Os insumos para extração do material genético viral e equipamentos desta etapa, por sua vez, somente foram repassados a partir de setembro”, diz o texto.

Além disso, dizem os secretários, o contrato para fornecimento desse material foi cancelado pelo Ministério da Saúde e ainda não foi feito outro, o que pode impedir o uso dos testes mesmo que o ministério consiga a extensão do prazo de validade.

Carlos Lula, presidente do Conass, disse à Reuters que os secretários não tinham conhecimento de que o ministério tinha todo esse material em estoque.

“No ritmo que estão sendo feitos os testes é muito improvável que se consiga usá-los antes do prazo de vencimento. É um absurdo”, afirmou à Reuters.(com agência Reuters)



Trabalhador da saúde realiza teste PCR no aluno Kaique Gabriel da Silva, na Escola Estadual do Reverendo Almir Pereira Bahia, em Taboão da Serra, nos arredores de São Paulo
Bolsonaro participa de evento em Brasília