Discurso de Bolsonaro na ONU é 'negação da realidade', afirmam especialistas

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Bolsonaro discursou nessa terça na abertura da 75 Assembleia Geral da ONU (Foto: Reuters)
Como manda a tradição, o chefe de Estado brasileiro abriu a conferência, que neste ano ocorreu remotamente devido à pandemia da covid-19. Em sua fala, nessa terça (22), Bolsonaro disse que o Brasil é "vítima de de uma das mais brutais campanhas de desinformação sobre a Amazônia e o Pantanal".

Segundo o presidente, a região é "sabidamente riquíssima", o que "explica o apoio de instituições internacionais a essa campanha escorada em interesses escusos que se unem a associações brasileiras, aproveitadoras e impatrióticas, com o objetivo de prejudicar o governo e o próprio Brasil". Dados recentes apontam níveis recordes de queimadas e desmatamento na Amazônia e no Pantanal.

Para Marcelo Seráfico, professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), o discurso de Bolsonaro na ONU "reitera as duas linhas de argumento fundantes de sua prática política".

"De um lado, a fuga do trato objetivo dos problemas vividos pelo país, que vão da devastação ambiental, passam pela crise econômica e chegam à crise sanitária. De outro lado, essa simples e direta negação da realidade é acompanhada da reiteração da defesa de uma religiosidade cínica, de uma política econômica que só beneficia grandes empresas, o setor financeiro e o agronegócio, e de um alinhamento servil do país à política externa do governo norte-americano", explicou o sociólogo.

Escalada do conflito com Venezuela

Em sua fala, Bolsonaro disse ainda que seu governo, com medidas econômicas, tinha evitado um "mal maior" durante a pandemia do coronavírus. Ele lamentou as mortes provocadas pela doença e criticou o isolamento social, afirmando que a imprensa "politizou o vírus" e a campanha para a população ficar em casa quase trouxe "caos social".

Ao final do discurso, o presidente fez "apelo a toda a comunidade internacional pela liberdade religiosa e pelo combate à cristofobia".

Para o cientista político Danillo Bragança, pesquisador da Universidade Federal Fluminense (UFF), um ponto marcante do discurso foi a referência à Venezuela, o que indica que o conflito com o país vizinho "está escalando novamente".

"Além disso, a presença no Brasil do secretário de Estado dos Estados Unidos, Mike Pompeo, caiu muito mal na região. Esses fatores apontam para um reaquecimento dos discursos contra a Venezuela", disse Bragança, que é especialista em segurança e assuntos militares, à agência de notícias Sputnik Brasil.

 

Bolsonaro acusou o governo do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, pelo derramamento de óleo na costa brasileira no ano passado.