Análise: Brasil está dividido e dificilmente veremos manifestações como as de 2013 em 2020, diz especialista

Milhões de brasileiros saíram às ruas há sete anos para exigir mudanças em grandes manifestações que ficaram conhecidas como as "Jornadas de Junho".

Motivadas no início pelo aumento do preço da tarifa do transporte público os protestos de 2013 tomaram proporções inesperadas e terminaram infladas com pautas múltiplas.

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Manifestação no Centro do Rio em junho de 2013 (Foto: AP Photo / Felipe Dana)

No último domingo (14), pelo terceiro fim de semana seguido, manifestantes anti-Bolsonaro fizeram protestos em diversas cidades a favor da democracia e contra o racismo.

Apesar de algumas semelhanças, o cientista político, Ricardo Ismael, professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), disse que junho de 2013 e junho de 2020 têm grandes diferenças.

Ismael explica que em 2013 houve uma espécie de divórcio entre entidades políticas tradicionais e a sociedade.

"Havia uma manifestação contrária ao status quo da política, governos e certamente isso teve repercussão inclusive nas eleições de 2018. Havia uma crise de liderança, de representação política e um divórcio de uma certa maneira dos governos e das Casas Legislativas em relação à sociedade".

O professor da PUC-RJ diz que mesmo o país apresentando índices satisfatórios de crescimento econômico até então, os governos não haviam conseguido garantir a população o acesso a serviços básicos.

"De uma certa maneira, 2013 mostra que os anos dourados dos governos petistas, principalmente do governo Lula, foram muito mais uma expansão de bens duráveis. A população comprou TV, carro, mas não houve um avanço na questão do saneamento básico, na questão da saúde, da moradia, quer dizer, esses serviços sociais ainda eram muito precários", afirmou.

Ricardo Ismael diz que o cenário político brasileiro em 2020 está muito mais fragmentado.

"Embora você possa olhar para Paulista e ver lá um grupo que ataca o Congresso e até pede intervenção militar, que ataca o Supremo e o outro lado pedindo por democracia, eu diria que o quadro é mais complexo", afirmou.

Segundo Ismael, há uma fragmentação interna dentro dos setores que não apoiam o Bolsonaro.

"O país está polarizado, eu concordo que há uma polarização, forças políticas que apoiam o Bolsonaro e forças contrárias, mas começa a surgir a possibilidade de alguma coisa ao centro, que nem está no grupo liderado pelo Lula contra Bolsonaro e nem no grupo que é liderado por Bolsonaro. Começa a haver, não estou afirmando que isso já se concretizou, mas começa a haver uma movimentação dos chamados candidatos de centro. O centro que foi o grande derrotado em 2018", disse.

O cientista político cita, por exemplo, o movimento criado recentemente chamado de "Somos 70%", a tentativa de uma união de forças entre todos aqueles que não apoiam o presidente Bolsonaro para se opor ao presidente, em uma espécie parecida com o que ocorreu com o movimento das "Diretas Já", nos anos 80. Mas segundo Ricardo Ismael, esse movimento não conseguiu adesão.

"O que se comentou era fazer uma campanha semelhante às 'Diretas Já', ali sim estava todo mundo junto, Lula, Brizola, Fernando Henrique. Mas agora o próprio Lula já disse que não é 'maria vai com as outras', ele simplesmente inviabilizou a ideia de uma frente nesse momento. A própria frente também disse que não aceita o Sergio Moro, então tem aí problemas de formação de uma frente como aconteceu nas 'Diretas Já'", explicou.

É justamente essa fragmentação no cenário político brasileiro que, segundo Ricardo Ismael, inviabiliza que ocorra em 2020 grandes protestos como o que houve em 2013.

"Em 2013 o movimento não pertencia a nenhuma liderança, era uma crítica generalizada, portanto o problema hoje é que há interesses políticos que tentam capitalizar as ruas, então é diferente de 2013. Isso dificulta você imaginar alguma coisa como a de 2013", completou. (Sputnik Brasil)