Em busca do Brasil do Bem: (5) O ódioduto e a reconstrução inadiável

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A economia brasileira entrou em modo barata-voa. A proximidade das eleições, a inflação de dois dígitos, a elevação dos preços dos alimentos e a quase inocuidade do auxilio-Brasil na percepção popular estão fazendo o motor econômico do governo, anunciado desde sempre como a última flor da sapiência neoliberal, a ferver como charanga em subida de ladeira.

No vale das ideias estapafúrdias de um governo sem projeto - à exceção da hipnótica busca de uma imerecida reeleição - surgem propostas açodadas tipo privatização da Petrobras como se, por si, a privatização tenderia a diminuir o preço do combustível, ao invés de, como certamente ocorrerá, aumentá-lo.

Para o ministro da economia deve ter soado como mandinga de cabra da peste, o Brasil sequer ser convidado para participar da reunião do G-8, em momento de especial turbulência da economia internacional. O recado é claro. O Brasil não tem nada a dizer e sua eventual participação no G-8 apenas ensejaria uma nova revoada de pássaros míticos em torno da cachola do nosso esvaziado posto Ipiranga.

O G-8 preferiu convidar a Argentina, nossa ex-parceira privilegiada e agora vista com tédio e desprezo pelas autoridades brasileiras. É bom não esquecer que a Argentina é exportadora de trigo, hoje cada vez mais dourado em consequência da invasão da Ucrânia e poderá tornar-se muito atraente para capitais estrangeiros que se entediam com o vai-não-vai da insegurança jurídica, a ameaça de turbulência nas eleições e o encanto com o autoritarismo a rondar a Terra da Santa Cruz. Enfim, mais uma esnobada no Brasil das matas queimadas, da perseguição aos índios e com péssima folha corrida na proteção dos Direitos Humanos, literalmente a cada dia objeto de escândalo e choque para a comunidade internacional.
Num plano mais aberto de análise, o Brasil parece estar-se refastelando na estrumeira do pipeline do ódio, plantado desde os primeiros dias de governo numa imitação do pior do que o pior dos governos dos Estados Unidos da América, na gestão do balofo Trump, ofereceu a desavisados estrategistas brasileiros formados nas cartilhas de Olavo de Carvalho e na Bíblia do mal de Steve Bannon.

Estamos pagando com juros elevados a consumação do erro primário de nos engajarmos numa aventura de aloprados como Steve Bannon, John Bolton e outros menos votados - sem esquecer a participação gratuita de nosso ex-Chanceler - de refazer a geopolítica internacional à luz de uma retomada agressiva dos Estados Unidos da América de sua posição inconteste de líder da economia mundial, posição que realisticamente está comprovadamente superada.

O furor com que Trump se lançou sobre as regras do comércio internacional - em grande parte construídas à imagem do interesse corporativo americano - teve para nós brasileiros, além do tapinha nas costas do presidente da República, apenas o desagrado de vermos as alíquotas de importação do aço aumentadas unilateralmente. Em seguida, ronronamos como gatinhos de madame, quando em troca de um aceno descomprometido sobre nossa intenção de entramos no Maracujá Country Clube da OCDE, abrimos mão de nosso “status” de país em desenvolvimento que nos garantia algum tratamento preferencial em trocas comerciais. Papelão, convenhamos.

Apresentou-se ao grande público com fanfarras e fogos de artificio dignos do jubileu de uma rainha da Inglaterra, a assinatura após dois meses deste governo, de um acordo Mercosul-União Européia que o Brasil recusava assinar sem fortes modificações durante mais de 20 anos. E jogou-se na cara dos negociadores do Mercosul que durante 20 anos resistiram a concessões gravosas ao interesse nacional de seus países as pechas de incapazes, ideólogos de esquerda ou, pura e simplesmente, biltres. Se, como se diz, o acordo não será assinado pelos europeus enquanto não se mudar o comportamento predatório do Brasil em sua política de desmatamento da Amazônia, conto, com certo otimismo, que um Congresso renovado pelas eleições de 2022 examine o texto do acordo e insista em múltiplas alterações em nosso favor, deixadas de lado pelo realismo mágico de nosso ministro da Economia.

E chego, aqui, no final de meu espaço, ao ponto central: o interesse nacional. Será que passados, três anos comendo este angu com que nos engoda o ministro da economia não seria hora de repensar este modelo econômico ultra-neoliberal requentado pelo Posto Ipiranga?

A tragédia da economia brasileira é simplesmente o fato de que deixou de ser brasileira. Para o Brasil. Amancebou-se com os novos ricos do planeta, os reais beneficiários de uma globalização financeira associada a uma desvalorização da justiça social. É o mesmo modelito que levou a surgir nos Estados Unidos da América a figura parva de Trump e nos fez de lá importar um ódio racial desconhecido aqui, alimentado por uma orgia de liberação de armas e sobretudo pela inconfessada ideologia de que o povo brasileiro não tem jeito.

A partir da próxima semana tentarei rever o histórico do neoliberalismo nascido com Reagan e suas ramificações a desembocarem na supremacia branca de Trump. Nós estamos importando um ódio que não é nosso e o cenário de caos possível nas eleições de 2022 será uma cópia pastiche do golpe fracassado de Trump.

Fechem os narizes. Mas, abram as janelas para a esperança de acabar com tudo isso pelo voto. E no primeiro turno.

*Embaixador aposentado

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