Em busca do Brasil do bem(4): nós que nos desconhecíamos tanto

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Houve tempo em que a Polícia Rodoviária Federal era fonte de orgulho e respeito dos viajantes. Incorruptíveis, diziam uns; solidários diziam outros. Era no tempo do JK, quando Brasil crescia cinquenta anos em cinco, estradas rasgavam o país em direção ao traço mágico de Niemeyer na terra árida do planalto Central.

Vivia-se a esperança do amanhã, em que migrações de brasileiros se dirigiam para Brasília, onde candangos viravam mestres de obras e nordestinos abriam restaurantes, pousadas, maravilhados diante de tanto céu, tanta luz num Brasil a explodir em rumo de um mundo melhor.

Havia humor, canções satíricas de Juca Chaves, sábados dançantes, noites de debutantes, Martha Rocha, Adalgisa Colombo, Teresinha Morango, Xavier Cougat, Altamiro Carrilho e sobretudo Ivon Curi, Nat King Cole. It was fascination. Bené Nunes.

A ideia geral era viver. Crescer. Na Economia, Celso Furtado nos ensinava os conceitos de subdesenvolvimento em contrapartida às razões pessimistas de Eugenio Gudin a insistir em nosso destino agrário. O português falado era culto, porém sem mesóclises pretensiosas. San Tiago Dantas explicava didaticamente a diferença entre o estado civilizado e a barbárie.

Sessenta anos depois, neste 2022 de eclipses sucessivas, solares umas, lunáticas a maioria, nos vemos num Brasil em que a Polícia Rodoviária Federal transforma uma viatura militar em câmara de gás e executa à luz do dia um cidadão com problemas mentais, porém pacífico e levado ao desespero por um tratamento humilhante, indigno de ser tolerado contra um animal selvagem.

Afinal, o que nos transformou neste bando de primatas? Sei que o fenômeno também ocorre em outros países, mas aqui no Brasil, todo este ódio nos acua e nos leva a uma perplexidade cotidiana. O que terá acontecido com o proverbial homem cordial? Para onde foi a decantada hospitalidade brasileira, faz poucos anos marca indelével de nossas cidades?

Será que a Covid corroeu os nossos neurônios e viramos uma espécies de zumbis antropófagos a espalhar uma insanidade brutal contra índios, negros, pobres, o meio-ambiente, a floresta amazônica?
Algo de muito podre fermenta em terras brasileiras. Já não reconhecemos este país como o nosso. Há uma palpável sensação de estranhamento em nossas relações com nossos semelhantes, vizinhos, colegas de trabalho. Nunca se comprou tanta arma no Brasil. Nunca se difundiu tanto o desrespeito à ordem constitucional e nunca se disseminou com tanta virulência a rebelião, a subversão, o golpe de Estado, o totalitarismo, tudo embalado num moralismo de fanáticos aiatolás. E tudo simplesmente hipócrita.

Impossível não comparar o desarranjo social brasileiro com o sempre lúcido livro de Albert Camus, “a Peste”, por muitos críticos considerado uma descrição vicária da ocupação nazista da França. Certamente, aqui não há exércitos invasores, mas sobram ratos mortos e vivos a empilhar por cidades brasileiras.
Particularmente chocante, a ineficiência na epidemia da Covid, quando a ciência foi questionada diante de curandeirismo criminoso, o que deverá ter contribuído para que o Brasil tenha um número de óbitos incompatível com a cultura de nosso povo, tradicionalmente adepto da vacinação em massa. Crime que a história não esquecerá.

Com a economia depauperada, ideologicamente apegada a um neoliberalismo já abandonado por países que anteriormente o idealizavam, o Brasil tem sua cidades inchadas pela pobreza, pelo descaso, pela indiferença.

Nosso sistema educacional em todos os níveis, do fundamental à pós-graduação sofreu cortes financeiros e ideológicos com repercussão lastimável em nossos jovens pela precarização da educação pública que, no Brasil, com a merenda escolar, sustentava a sobrevivência de milhares de famílias.

No serviço público, pessoal qualificado se viu substituído por nomeações políticas de fundo inquestionavelmente político com consequências danosas para o público em geral.

Praticamente abandonada à própria sorte, a mão de obra medianamente qualificada sobrevive de forma precária em serviços de entrega por motocicletas, onde o risco de vida se soma à penúria financeira.
E ao se aproximarem as eleições, forças não tão ocultas anunciam uma irresponsável descrença no sistema eleitoral brasileiro com miras a permanecer no poder por tempo indeterminado, de forma autocrática quando não totalitária.

Em nome de quem? Pois, é certo que uma minoria se beneficia deste chiqueiro político, moralmente fétido e absurdamente promovedor do ódio e da luta fratricida.

E nossa inércia é a de mortos-vivos. Nossa arma é a vitória no primeiro turno. Limpa, maciça, inquestionável. Como uma paulada numa ratazana.

Na mesma semana em que se nega à Doutora Nise da Silveira título honorifico mais do que merecido por ter sido defensora dos direitos dos doentes mentais, um cidadão pobre e mentalmente desfavorecido é morto à vista de todos numa câmara de gás improvisada pela polícia.

Nada mais revelador da miséria humana em que nos encontramos. Um coice de mula na dignidade nacional.

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EM TEMPO: Com a morte de Jose Augusto Lindgren Alves o Itamaraty perde um de seus mais notáveis embaixadores da área de Direitos Humanos. Tive o prazer de com ele conviver quando nos anos 80 trabalhamos juntos na Missão do Brasil Junto às Nações Unidas e me beneficiei de sua amizade e vi a liderança de Lindgren junto a diplomatas estrangeiros que muito o respeitavam. Foi um batalhador dos Direitos Humanos, tema em franco e lamentável desprestígio no Brasil de hoje, tal como nos temos da ditadura militar, que demitia, com o AI-5, diplomatas que denunciavam a tortura no país. Estamos voltando às cavernas.

 

*Embaixador aposentado

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